West meets East: o álbum antológico de Yehudi Menuhin e Ravi Shankar

Bem se sabe que quando dois grandes músicos se encontram muitas expectativas são criadas, uma vez que é esperado, a partir desse encontro, um resultado musical – que pode ser em fonogramas, shows, concertos, eventos, etc – tão esplêndido quanto a produção individual de cada um deles. Esse foi o caso do álbum West meets East (traduzido literalmente no Brasil como “O Ocidente encontra o Oriente”), sob a produção artística de Yehudi Menuhin e Ravi Shankar, e lançado no começo do ano de 1967.

A busca ocidental pela modificação dos estados da consciência humana a partir da compreensão do universo sagrado oriental surtiu efeito na música dos anos 60, resultando num mosaico sonoro criativo e plural. No auge da contracultura internacional, que se refere primordialmente à década de 60, os ritmos cósmicos sagrados conquistaram boa parte da juventude do Ocidente; sendo um período de questionamento de diversos paradigmas, a relação com práticas do Oriente foi aprofundada como uma forma de busca por transcendência, resistência e emancipação.

Sendo assim, o sitar e elementos da música indiana mais tradicional foram assimilados por uma parte da linguagem da música ocidental, perpassando pela música de concerto, pelo rock e até mesmo pelo jazz, no final dos anos 60 e início dos 70.

Ravi Shankar e George Harrison

O músico e compositor Robindra Shankar Chowdhury, mais conhecido como Ravi Shankar (1920-2012), nasceu na cidade de Varanasi na Índia, e foi um dos principais introdutores da música indiana e do sitar (instrumento de cordas) em cenário artístico ocidental. A produção musical de Shankar, enquanto sitarista, é uma das mais prestigiadas em todo o mundo, e boa parte de sua fama se deve à parceria com o músico George Harrison, que influenciou muito a música dos Beatles na época. Entretanto, é importante ressaltar que a intenção dele ao aproximar Oriente e Ocidente precedeu o seu contato com Harrison e os próprios Beatles.

Isso porque Shankar já havia desenvolvido um projeto musical com o violinista estadunidense Yehudi Menuhin, que resultou no renomado álbum West meets East. No caso de Menuhin, a aproximação entre Ocidente e Oriente se fez com a música de concerto europeia; e no caso dos Beatles, com as linguagens do rock e pop. Além disso, houve também a participação de Shankar no Festival Pop de Monterey (1967), que foi elogiada pela crítica e público contracultural, sobretudo perante os adeptos do movimento hippie; posteriormente, ele participou do Festival do Woodstock (1969) e colaborou na organização – em parceria com George Harrison – do Concerto para Bangladesh (1971).

O violinista e maestro Yehudi Menuhin (1916-1999) nasceu em Nova York (EUA), mas pertencia a uma família judia e residiu boa parte de sua vida na Europa. Considerado um dos músicos mais virtuosos do século XX, muitas de suas apresentações musicais tiveram certo engajamento em causas sociopolíticas. Crítico em relação aos ataques israelenses aos palestinos, no período da Segunda Guerra tocou para sobreviventes dos campos de concentração nazista e para a inauguração da ONU. No início dos anos 60, em Londres, o músico fundou a Yehudin Menuhin School (hoje dirigida pelo maestro e pianista Daniel Barenboim), além de gerir os Festivais de Bath (1959-1968) e Windsor (1969-1972).

O álbum West meets East foi consequência do encontro de Yehudin com Ravi Shankar em uma das apresentações do Festival de Bath em 1966. Porém, ambos se conheceram anos antes quando Yehudi realizou concertos em Nova Delhi em 1951 e, na medida em que foram estreitando os laços de amizade, eram frequentes seus encontros musicais e concertos, até chegar o momento de finalmente registrarem/materializarem esses encontros em fonogramas.

A respeito da amizade entre eles, que se tornou sólida e à base de admiração mútua, Ravi Shankar chegou a declarar: “Eu nunca tinha visto antes um músico clássico do Ocidente responder tão emocionalmente à nossa música, não somente mostrando interesse aos aspectos técnicos da mesma. A reação de Yehudi à música indiana, bem como a minha reação para com a personalidade dele foram o início de uma bonita amizade entre nós”.

Ravi Shankar e Yehudi Menuhin em duo

É válido salientar que Shankar não foi a única porta de entrada ao Oriente para o violinista. No ano de 1952, Yehudi conheceu o guru indiano e professor de yoga Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar (1918-2014), que lhe iniciou na prática do yoga, aprofundando seu contato com o universo mítico e espiritualizado da Índia; a partir disso, como Yehudi mesmo afirmou, essa nova experiência alteraria seu modo de vida e sua relação com o próprio violino:

[…]. Em 1952, quando estava na Índia, o violinista Yehudi Menuhin quis conhecê-lo. O guru aceitou fazer uma viagem de sete horas até Bombaim para se encontrar com aquela celebridade. Tinham agendado uma conversa de poucos minutos, às 7 da manhã, mas acabaram por ficar a conversar durante três horas e meia e ficaram amigos para a vida. Menuhin afirmou depois que Iyengar alterou a sua vida e a sua forma de tocar. Foi também o músico o responsável pelas primeiras viagens do guru ao Ocidente. […]. (Globo, 2014, online)

Tendo em vista esse panorama particular do período contracultural e de ambos os músicos, Ravi e Yehudin, em meio a essa busca e curiosidade ocidental pelo Oriente, tudo parecia se encaminhar e ser favorável para uma das concretizações mais significativas do cenário musical mundial: o álbum West meets East. O álbum foi gravado nos Estados Unidos pela Angel Records da EMI em junho de 1967 e em fevereiro do ano seguinte ganhou o Grammy Award referente ao “Best Chamber Music Performance”.

Na verdade esse álbum fez parte de uma trilogia: o primeiro foi o West meets East (1967), o segundo West meets East Vol. 2 (1968) e, por fim, o Improvisations: West meets East (1976). A trilogia é um marco na história da música ocidental, uma vez que se propôs a estabelecer uma aproximação tanto da tradição indiana dos ragas, quanto da tradição europeia da música de concerto, em grandes demonstrações de virtuosismos técnicos. No entanto, é evidente que somente a questão da virtuosidade não seria suficiente para concretizar esse marco; a concepção de música associada à espiritualidade e práticas orientais fez com que esses dois músicos entrassem em sintonia rapidamente.

Para cada disco dessa trilogia seria necessário uma abordagem exclusiva, tamanha sua riqueza de temáticas e reflexões que não se esgotam facilmente. As pesquisas acadêmicas sobre essa obra são nitidamente escassas no Brasil e, portanto, já de antemão pode-se vislumbrar uma ótima escolha investigativa para futuros pesquisadores brasileiros que tenham interesse nela e na presença da música indiana no Ocidente.

Com o intuito de servir de pontapé inicial nesse debate, foquemos por ora aqui, ainda que brevemente, sobre o primeiro álbum. O West meets East de 67 é um dos primeiros fonogramas produzidos no que se refere a esse encontro entre Ocidente e Oriente, e manteve bem aparente a divisão sonora em termos geográficos; ou seja, o lado A do disco foi voltado para a sonoridade dos ragas, e o lado B se direcionou à música de concerto, totalizando quatro peças ao todo. Na contracapa há uma pequena descrição das peças do lado A, bem como um glossário dos termos da música indiana para melhor entendimento das mesmas.

Capa do álbum “West meets East” de Ravi Shankar e Yehudi Menuhin gravado pela EMI

Analisemos o lado A; a primeira música, intitulada “Prabhãti”, é uma composição matutina do Ravi Shankar baseada no Raga Gunkali. Ela possui quatro movimentos, dispostos respectivamente da seguinte forma: Aochar (apresentação concisa do tema em Alap [introdução do movimento em ritmo de pulso irregular]), Cadenza (improvisação por Yehudi Menuhin), Jod (movimento ritmado e praticado nas cordas chikari do sitar) e Gat (todas as seções acompanhadas em tala [ciclo ritmico] pela tabla [instrumento percussivo]). A segunda, “Raga Puriyâ Kalyan”, é uma composição também de Ravi Shankar, voltada para o início de noite, com técnicas específicas em reverência ao pôr do sol (a exemplo do Tihais). Por fim, a terceira, denominada “Swara Kãkali” (baseada no Raga Tilang) se mostra como um evening raga (assim como a peça anterior a ela) e está dividida em três movimentos (Aochar, Cadenza e Chat).

Já o lado B apresentou na íntegra a “Sonata for Violin & Piano No. 3 in A minor Op. 25, do compositor, violinista e maestro romeno George Enescu (1881-1955), o qual, inclusive, fora professor durante os anos 20 do Yehudi Menuhin. Esta peça (de quase meia hora de duração) foi escolhida pelo Menuhin com a justificativa de que foi Enescu, com seu interesse pela música oriental e pelo próprio Ravi Shankar, que introduziu o universo musical oriental à Menuhin. A peça mantém uma atmosfera de improvisação da música folclórica romena (ainda que já reinterpretada por Enescu), remetendo a questões de tradição do povo romeno; talvez por também por esse motivo Yehudi a tenha escolhido para ser incluída quase “lado a lado” da música clássica indiana no West meets East, já que a música indiana também diz respeito às tradições, porém, obviamente, sobre a cultura indiana.

Nota-se, a partir de tais premissas, que esse álbum pode ser considerado uma espécie de introdução da música indiana ao ouvinte ocidental, como o próprio título sugere (“o Ocidente encontra o Oriente”, e não o contrário propriamente dito), uma vez que esse ouvinte era pouco familiarizado a essa sonoridade, embora demonstrasse alto interesse em conhecê-la. A fronteira sonora é visível entre os lados A e B, não havendo a intenção de realizar uma fusão musical; mesmo sob a aura da contracultura, a busca pelo Oriente ainda necessitaria romper diversas barreiras (políticas, culturais, sociais, etc.) para concretizar fusões mais bem delineadas e desenvolvidas. West meets East foi um álbum-chave inspirador para fusões futuras entre outros músicos ocidentais.

Referências

ARGEBAND, Ben. Menuhin and Shankar: a duet of East and West. The Culture Trip. 13 jan 2017. Disponível em: https://theculturetrip.com/asia/india/articles/menuhin-and-shankar-duet-of-east-and-west/. Acesso em 01 nov 2017.

COLARUSSO, Osvaldo. Yehudi Menuhin: centenário de um grande músico e humanista. Gazeta do Povo. 21 abr 2016. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/yehudi-menuhim-centenario-de-um-grande-musico-e-humanista/. Acesso em: 01 nov 2017.

CULTURE. How we met: Yehudi Menuhin and Ravi Shankar. Independent. 30 set 1995. Disponível em: http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/how-we-met-yehudi-menuhin-and-ravi-shankar-1575503.html. Acesso em 01 nov 2017.

GLOBO. Morreu o guru do Iyengar yoga. Diário de Notícia. 20 ago 2014. Disponível em https://www.dn.pt/globo/asia/interior/morreu-o-guru-do-iyengar-yoga-4085415.html. Acesso em 01 nov 2017.

MARSICANO, Alberto. A Música Clássica da Índia. São Paulo: Perspectiva, 2011.

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