Villa-Lobos em dois tempos: citações de elogio e escárnio

Atenção! O artigo abaixo é uma leitura histórica sobre “haters” de Villa-Lobos. Ele não representa jamais a visão do Música e Sociedade. Nós publicamos este artigo como alerta para as construções de discursos e ódio. Nossa posição é de profundo respeito à obra do compositor.

Rebello Alvarenga, fundador e diretor geral do Música e Sociedade

 

Viva, Villa!

Cartaz do Festival “Viva Villa!” organizado pela OSESP

O Música e Sociedade esteve presente na Sala São Paulo para os concertos do evento “Viva Villa!” (20 a 25 de fevereiro) organizado pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Mais um grande triunfo da instituição, além de outro brinde desta à cidade de São Paulo e à cultura. “Uma semana de comemorações e homenagens ao nosso maior compositor”, resume o subtítulo do evento no folheto que nos foi entregue na entrada. Mais que um folheto com a programação da semana, este exemplar possui mais duas seções: “Villa-Lobos em 10 citações” e “Karabtchevsky reencontra Villa”. O título da primeira seção é auto-explicativo; já a segunda seção contém uma entrevista com o regente Isaac Karabtchevsky e o arquivista Antonio Carlos Neves Pinto. A seção sobre as citações de Villa-Lobos merece uma atenção mais demorada e pode suscitar algumas interpretações sobre como foi entendida a obra do “nosso maior compositor”. Essa escolha se dá por um documento que chegou até nós através do Instituto do Piano Brasileiro e que possibilita uma comparação histórica relevante. Mas antes, trataremos do material produzido pela OSESP.

Das 10 citações, as duas primeiras são palavras do próprio compositor: uma em forma de citação extraída de um estudo de musicologia, a outra retirada de uma entrevista por escrito pela Folha da Manhã em janeiro de 1952. Ou seja, há muita pesquisa envolvida e estas 10 citações não foram escolhidas por simples capricho. Como é de conhecimento de todos, Villa-Lobos era dado aos mais variados expedientes de boataria e não perdia uma oportunidade de se engrandecer. O que em nada diminui o triunfo e o mérito de sua obra, mas a primeira citação não poderia ser mais adequada a esses ânimos vaidosos: “A minha obra musical é consequência da predestinação”. Para Villa, existe “um imperioso mandato interior” o qual segue obstinadamente e que o faz sentir “possuído pela vida do Brasil, seus cantos, seus filhos, suas esperanças”.

Se a primeira citação é toda ela inspiração e destino, a segunda é um misto de esquematização teórica apressada e iconoclastia. “Em sua compreensão musical, a humanidade permaneceu no décimo oitavo século”, como se a música não tivesse tido a oportunidade (ou mesmo a vontade) de acompanhar “o progresso material e psicológico dos tempos modernos”. A solução para isso? Uma reforma de ensino: “É preciso abandonar as escolas ‘a maneira de’ (….) Por que fazer isto ou aquilo, à maneira espanhola, francesa ou russa? É necessário ensinar à maneira de seu país”. Gaba-se de ser descendente de índio e jamais ter tido mestres estrangeiros, mas uma vez a frente da Superintendência de Educação Musical e Artística do Estado Novo tratou de implantar uma técnica francesa do século XIX: o canto orfeônico. É claro que a técnica teve sua aclimatação nas mãos de Villa-Lobos e que havia outros agentes no jogo para decidir isso, mas não deixa de ser curioso o contraste entre teoria e prática.

As outras 8 citações, de figuras as mais variadas, primam por interpretações diferentes da personagem de Villa-Lobos e ressaltam seu conteúdo histórico em cada época, mas também guardam uma semelhança: todas são elogiosas. Nada mais apropriado para uma semana de homenagem. De jornalistas internacionais a intelectuais, literatos e cancionistas brasileiros, todos procuram engrandecer a figura de Villa-Lobos, desde a sua ida a Paris até a sua morte. A primeira citação é uma memória de Tom Jobim, na qual o cancionista lembra de quando ouviu a primeira gravação dos Choros n. 10 de Villa-Lobos e foi aos prantos. Manuel Bandeira ressalta a sua chegada de Paris, na qual Villa-Lobos voltou ainda mais brasileiro, quando o que se esperava é que o compositor retornasse cheio de francesismos em meio àquela “atmosfera de egotismos”. A citação de Carlos Drummond de Andrade é um trecho da crônica em que narra a morte do compositor em 1959: “Era um espetáculo. Tinha algo de vento forte na mata, arrancando e fazendo redemoinhar ramos e folhas”. Menotti del Picchia, um expoente do modernismo, também não poupa elogios em sua citação e ainda salpica com um pouco de misticismo, “integração consciente e profunda da voz oculta da terra e do homem às transcendentes finalidades de um país”. Esse quarteto de notáveis (Bandeira, Drummond, Jobim e Del Picchia) já nos permite denotar o prestígio do compositor em meio aos intelectuais e artistas.

Do lado dos “menos notáveis” temos os comentários dos jornalistas do The New York Times e The Guardian, dois dos maiores nomes do periodismo de língua anglófona. As do Times espelham a recepção internacional de Villa-Lobos à época de sua consagração por aqueles lados (década de 1940-1950). Na primeira citação, sem distinguir o nome do jornalista, podemos ver um repórter atônito pela apresentação do Uirapuru: “são páginas soberbas, páginas não meramente fotográficas ou de ventriloquia, mas de um impressionismo genuíno e altamente individual”.

Era perceptível desde aquele momento o caráter individual da sua composição e os fatos históricos o demonstram, pois não existe um só compositor que poderíamos chamar de “villa-lobiano”. Ainda nessa crítica, sua orquestração é comparada a de “Rimsky-Korsakoff” pela sua coloração e sensualidade – esta última é uma palavra que aparece mais de uma vez na citação. Para o repórter, dá pra sentir o cheiro, ver a paisagem e perceber o jogo de luzes: é uma noite tropical. As duas outras críticas, de Olin Downes (Times) e Tom Service (Guardian), guardam um tom igualmente elogioso mas são menos descritivas, procuram retratar o compositor por algumas generalizações, “poder primitivo”, “reflexo da expansiva e explosiva diversidade do seu país”, “senso harmônico e orquestral soberbo”, entre outros. Por fim, temos uma última citação extraída de uma votação para o projeto de lei que aprovou a ida de Villa-Lobos à Paris, na qual Gilberto Amado defende fervorosamente a ida de Villa-Lobos a Paris: “Este músico não é apenas músico; é uma expressão luminosa do Brasil novo, é um embaixador da mentalidade musical da nossa pátria, é uma conformação pessoal em que cantam todas as sinfonias esparsas do nosso país”. Como sabemos o desfecho da história, talvez seja esse ato fervoroso que permitiu a ida do nosso maior compositor ao velho continente.

Box das 7 sinfonias de Villa-Lobos com regência de Isaac Karabtchevsky.

Todo esse material leva a uma conclusão imediata: finalmente chegou o momento em que a obra de Villa-Lobos pode desfrutar de um ambiente pacífico para sua devida recepção. E a Fundação OSESP, que recentemente terminou o projeto de edição e gravação das Sinfonias – trabalho de 7 anos – , é uma instituição que tem papel fundamental na melhoria desse ambiente. Nada mais apropriado do que estas 10 citações para coroar este feito inédito e que faz avançar a música no país.

Fora, Villa!

É interessante agora, para fins históricos, deslocar essa recepção. Esse deslocamento não se faz por bel-prazer, no entanto, mas pelo contato com uma fonte histórica que parece nos dar o ar da recepção tensa de Villa-Lobos. Se nos anos 30, quando Tom Jobim travou contato com a obra de Villa-Lobos, ele já era o “Vira-Loucos” e objeto da “galhofa nacional”, nos anos 50 o desprezo de alguns setores da música de concerto com a obra do compositor ganhou uma agressividade contundente. É isso que mostra o panfleto anônimo que chegou até o Música e Sociedade através da colaboração com o Instituto Piano Brasileiro (IPB).

No acervo do musicólogo Aloysio de Alencar Pinto, foram encontradas duas páginas de um panfleto destinado a denegrir a imagem de Villa-Lobos. Não se tem informações de quem o produziu ou onde ele foi distribuído, mas pelo formato pequeno e de fácil tiragem, estima-se que a circulação foi grande. O ano em que foi produzido também é nebuloso, as únicas referências cronológicas do texto estão nas citações de Laura Figueiredo e datam de 1954, época em que Villa-Lobos já desfrutava de um status de cânone no Brasil.

O panfleto é dividido em três sessões: I. “Quando o Sr. Villa-Lobos fala a verdade?!”, II. “Villa-Lobos em pedacinhos…”, III. “As ‘Criações’ do Sr. Villa-Lobos”. Pelo tom dos títulos, o leitor deve imaginar o conjunto de vitupérios que se segue. A primeira sessão é uma crítica musical feita por Laura de Figueiredo ao “grande vespertino carioca Vanguarda” em 21 de julho de 1954, aparentemente reproduzida na íntegra. Nesta crítica podemos apreender o motivo condutor de todo o panfleto: os Choros n. 1, n. 8 e n. 10 são plagiados, respectivamente, de Sátiro Bilhar, Ernesto Nazareth (tango “Turuna”) e do duo Anacleto de Medeiros e Catulo da Paixão Cearense (“Rasga o Coração”). A crítica faz questão de tornar público que Villa-Lobos está sendo processado pelo Juizo de Direito da 4a. Vara Cível através do artigo 663 do Código Civil Brasileiro. Ainda nesse registro, Figueiredo retrata Villa-Lobos se defendendo espalhafatosamente das críticas ao apoiar-se em experiências de compositores internacionais ou mesmo dizendo que os seus Choros n. 6 são cantos de passarinho (azulão, uirapuru, araponga, bem-te-vi) e que estes pássaros estariam em igual direito de processá-lo.

Para dar voz à acusação de plágio, negando-lhe a alcunha de compositor para intitulá-lo pejorativamente como arranjador, a segunda seção tem um conjunto de citações. Se o material disponibilizado pela Fundação OSESP contém apenas citações elogiosas ao compositor, o panfleto revelado pelo IPB se situa no flanco diametralmente oposto. A começar por uma citação em tom de anedota de Mário de Andrade, uma das vozes mais celebradas e ouvidas àquela altura no campo da música: “Certa vez, em São Paulo, o concertista da orquestra ganhou uma aposta de que tocaria o Hino Nacional inteiro durante a execução de uma peça qualquer, sem que o Villa se apercebesse…”. A historieta carrega um tom de que havia pouca confiança por parte dos intérpretes e reafirma a “galhofa” que pairava sobre o compositor, ainda mais vindo com a assinatura de Mário, o que coroa a narrativa com um status de veracidade.

A voz diplomática de Vasco Mariz é chamada para fazer coro aos impropérios ao atacar as qualidades de intérprete e regente do compositor: “Villa-Lobos não pode ser considerado um bom intérprete, nem da sua própria música (…) Batuca razoavelmente o piano (…) Como regente, ainda não se fez notar”. Essas duas citações são colocadas em primeiro plano pelo prestígio de seus locutores.

Heitor Villa-Lobos junto aos seus principais instrumentos: violoncelo e violão

A terceira citação não se dirige diretamente a Villa-Lobos, mas aos “arranjadores” que “ajuntam peças já conhecidas da música universal” para compor pastichos e imitações, e é de autoria de Walter Gieseking, reconhecido pelo panfleto como “um dos maiores pianistas do mundo contemporâneo”. Seguem dois ataques breves: “Villa-Lobos é o grileiro n. 1 da música nacional” (Agrippino Grieco) e “Villa-Lobos é um talento-fêmea. Ou alguém o fecunda ou nada produz”. Até aqui as citações escolhidas são clínicas e conseguimos perceber a técnica: visam referendar a acusação de Laura de Figueiredo. As últimas três, cunhadas por desafetos de Villa, como Oscar Guanabarino e Agrippino Grieco, junto ao pianista e intérprete das obras do injuriado, Ernani Braga. Como as citações são mais extensas, não cabe a sua reprodução. Grieco expõe de modo caricato as vaidades de Villa-Lobos, como não se importa com Beethoven e Wagner; uma comparação esdrúxula feita pelo compositor entre ele e o Cristo do Corcovado; sua regência “tragicômica” da obra de Bach, entre outros “egotismos” escancarados.

Guanabarino, crítico musical responsável pela coluna “O Mundo das Artes” no Jornal do Commercio entre 1879 e 1937, possui o excerto mais agressivo do panfleto. Para o crítico musical, Villa-Lobos está enfermo. Foi acometido por uma “febre de produção” (para vermos que as acusações de produtivismo não são particularidade apenas deste século) que o faz ser incompreendido por músicos e compreender a si mesmo. Não “medita” sobre o que compõe, não é “obediente” a nenhum princípio. Guanabarino afirma que Villa compõe mais do que qualquer ativo compositor no fim da vida. Provavelmente extraída de uma crítica de concerto – o panfleto não referência a citação – em que executaram sua “Dansa Frenética”, Guanabarino acredita que ela foi elaborada para “ser executada por músicos epiléticos e ouvida por paranoicos”, “não tem pés nem cabeça”; para resumir: “um amontoado de notas que chocalham canalhamente”.

Por fim, a citação de Ernani Braga é conhecida e está presente no estudo de Wisnik sobre a música na semana de 22 (O coro dos contrários), trata-se da execução de “A Fiandeira” durante o famigerado marco-fundador do modernismo no Brasil. Nela, Braga relata uma execução anterior da peça em que se recusou a usar um pedal contínuo no final, e por isso a peça foi um sucesso. Havia discutido anteriormente com seu professor Luiz Chiafarelli e este recomendou energicamente que não tocasse aquele pedal ao final, “use o pedal como da primeira vez; o Villa não é pianista. Você é quem está com a razão”. Este excerto é um ótimo substrato empírico para a tensão histórica entre compositor e intérprete, atualizando este embate para o Brasil dos anos 20; mas, neste caso, é empregado para mostrar como Villa-Lobos possui uma pianística duvidosa.

Por fim, a última sessão sobre as “criações” de Villa arrola uma longa lista das gravações e partituras editadas que supostamente foram plagiadas. São mais de dez partituras e gravações, com número de registro, acusadas de cópia sem autorização. Ao final, uma mensagem que parece denunciar a verve de quem produziu o panfleto: uma defesa apaixonada da obra de Carlos Gomes, que seria “criminosamente esquecido pelo Itamaraty”, responsável por divulgar os compositores no interior. Com ironia, o panfleto ataca o principal órgão da política externa, pois apenas beneficia Villa-Lobos, o “autor” de “Cai, cai, balão”, “A canoa virou”, “Carneirinho, carneirão”, “O cravo brigou com a rosa”, “Xô, xô, passarinho”, entre outras.

Muitos se perguntam hoje em dia onde se escondiam os “haters” da internet, antes da internet. Talvez tenhamos uma pista de seu comportamento agressivo, anônimo e distante em casos como esse. A contribuição dos tais “haters”, à época e hoje, é jogar uma cortina de fumaça na compreensão do que quer que seja: um acontecimento, um festival, a trajetória de um compositor. Apesar dos esforços de instituições culturais e do tempo que se distancia cada vez mais da sua morte, os detratores de Villa-Lobos ainda estão ativos e ainda há um longo percurso a percorrer até uma edição crítica e integral da sua obra.

Para obter o panfleto cedido pelo Instituto Piano Brasileiro em PDF, acesse o link: http://www.institutopianobrasileiro.com.br/files/uploads/2018-03-08-162006_0_Panfleto_com_cr%C3%ADticas_destrutivas_a_Villa-Lobos.pdf

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