Uma história da indústria fonográfica no Brasil. Parte final: Da expansão continental ao triste fim do negócio de Fred Figner

Parte I
Parte II

Nas últimas colunas, analisei as condições que permitiram o desenvolvimento da indústria fonográfica no Brasil no começo do século XX. Assim, apontei a existência de um moderno mercado de música na capital imperial, o Rio de Janeiro, já no final do século XIX, o que permitiu a empreendedores aventureiros criarem gravadoras locais na década de 1900 e, antes, havia descrito como operava a Casa Edison, de Frederico Figner. Nesta última coluna da série, quero dedicar atenção ao processo de expansão desse negócio e seu declínio.

Anuncio de fonógrafo da Columbia importados diretamente por Fred Figner

Mais uma vez, Fred Figner se apresenta como o principal personagem dessa história. Em particular, quero entender como Figner foi um intermediário fundamental para a expansão do negócio fonográfico tanto no Brasil quanto no cone sul para, em seguida, analisar como ele foi sistematicamente afastado da gravadora Odeon, num momento em que o negócio fonográfico passava a operar de uma maneira distinta à da época original.

Como observei na primeira coluna da série, em seus primeiros anos, o negócio fonográfico funcionava de uma forma absolutamente distinta dos termos que conhecemos hoje em dia. Ele se baseava no controle de patentes (uma categoria de Direitos de Propriedade Intelectual que concede exclusividade ao titular de explorar, por tempo limitado, a tecnologia que ele ou ela provou ter desenvolvido). Assim que uma empresa adquiria uma patente sobre alguma tecnologia de reprodução sonora (na época, não havia um padrão seja de forma, seja de rotação por minuto. Cada empresa produzia cilindros ou discos de tamanho e rotação por minuto específicos, a fim de evitar concorrência), passava a delegar a agentes autorizados contratualmente o direito de revender os discos da empresa em determinado território do mundo.

Também como vimos antes, ao chegar ao Rio de Janeiro, Fred Figner celebrou um acordo de produção com a empresa alemã International Talking Machine-Odeon. O contrato assinado por Figner era um tanto exótico, conforme Humberto Franceschi (2002) nos deixa analisar, mas apresentava uma contrapartida muito interessante: a empresa oferecia 1/3 de sua patente no 3.465 (apenas para o território brasileiro) que garantia o direito de explorar comercialmente os discos de dupla face (gravações nos dois lados da chapa). Com tal contrato em mãos, Figner não iria apenas comprar e vender músicas na Casa Edison do Rio de Janeiro. Na verdade, ele teria o monopólio de uma tecnologia sofisticada, que lhe permitiria controlar seus competidores locais em todo território nacional.

Figner dedicou-se, então, a desenvolver uma rede comercial de amplitude nacional, isso é, integrando os núcleos urbanos mais dinâmicos de um país que era, majoritariamente, interiorano e rural. Ele o fez basicamente de duas formas. Por um lado, abriu filiais da Casa Edison-Odeon em diferentes cidades. Em 1913, inaugurou uma loja em São Paulo, gerenciada por seu irmão, Gustavo Figner. De lá, enviavam discos para outros estados, como o Paraná e Minas Gerais. Nesta mesma época, também abriu filiais nos estados do norte e nordeste, Pará e Bahia, como é possível constatar no catálogo da Casa Edison de 1913 (que consta nos CD anexados ao livro de Franceschi). Por outro, estabeleceu acordos com empresas nacionais e estrangeiras para comercializar seus produtos em diferentes regiões do país. Em 1907, assinou um acordo com a Columbia Phonograph Co. para vender seus discos no norte e nordeste do país (FRANCESCHI, op. cit., p. 171). Também fez aliança, em Porto Alegre, com a Casa Hartileb e, pouco depois, tentou estabelecer uma parceria com a firma A Elétrica, dos irmãos italianos Savério e Emilio Leonetti (VEDANA, 2006). Aliás, as negociações com agentes situados no Rio Grande do Sul eram estratégicas. Figner tinha em vista atender o lucrativo mercado do Rio da Prata (Uruguai e Argentina) que, apesar do vigor econômico, não apresentava produtores fonográficos de peso na região. Gradativamente, dependendo da velocidade nas negociações imposta pelas patentes, Figner expandiu seus negócios por boa parte do território nacional e continental.

Foto do interior da Casa Edison

Essa movimentação nos leva a supor que o lucro de Figner era expressivo para a época. Conforme revela Franceschi (ibid., p. 195), consta numa parte de seu diário que a produção da Casa Edison passara das 733 gravações, em 1902, para 3.000 ao final de 1911, com tiragem de 750.000 discos (considerando tiragens inicias de 250 cópias por matriz). Entre 1911 e 1912, foram comercializados 840 mil discos, gerando um lucro líquido de 700 contos de réis! Tudo bem, é muito difícil precisar um equivalente em reais brasileiros de hoje. Porém, é possível se ter uma ideia da importância desse valor, pois foi suficiente para permitir ao empresário não só construir uma imponente mansão à Rua Marquês de Abrantes, no 99, no elegante bairro do Flamengo (casa que existe até hoje, abrigando uma filial do SESC-Rio), como também lhe suscitar uma ideia ousada: a construção da primeira fábrica de discos na América do Sul.

A partir de 1911, Figner inicia negociações para a construção de uma fábrica de discos no Rio de Janeiro. A ideia não resultava de alguma alucinação de um deslumbrado empresário da periferia do capitalismo industrial. Pelo contrário, ela vinha no momento adequado. Nessa época, a International Talking Machine-Odeon havia sido adquirida pela empresa alemã Carl Lindström. Diante da iminência do que viria a ser a Primeira Guerra Mundial, os empresários alemães já nutriam a ideia de construir fábricas de discos fora da Europa, junto a alguns parceiros comerciais. Figner era o mais adequado. Com o suporte técnico da empresa estrangeira, Figner assumiu os custos iniciais da importação do maquinário e da construção de uma instalação no bairro de Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. Inaugurada em 1913, a fábrica de discos Odeon foi a primeira a ser construída fora dos Estados Unidos, da Europa ou do Japão.

Pela detalhada descrição que Franceschi (op. cit., p. 193-217) nos apresenta, podemos saber que se tratava de uma planta de grandes proporções, munida de alta tecnologia para a época. Contava com cerca de 150 operários e tinha uma capacidade média para a produção de 125.000 unidades por mês, portanto, 1.500.000 discos ao ano (ibid., p. 203). Com a montagem da fábrica, o índice médio de produção de discos passou de 250 unidades para 600. Vendida tal tiragem, processavam-se novas prensagens em número reduzido, 20 a 30 de cada vez, dependendo da demanda dos revendedores. A venda inicial de mil discos era o índice para se considerar um título como bem-sucedido. A experiência carioca foi tão positiva que Figner foi designado pela Lindström para supervisionar a construção de uma fábrica da Odeon na Argentina, que seria inaugurada em 1918 (ibid., p. 275-281).

Anuncio de gramofones Columbia para o natal

Apesar de estar precavido com patentes e contratos, Figner não deixou de enfrentar competição. Em 1914, os irmãos Leonetti iniciam um processo de substituição de importações, inaugurando sua própria fábrica nos, então, arredores de Porto Alegre (VEDANA, op. cit.). Considerando a descrição feita por Hardy Vedana (ibid.), contudo, a fábrica de discos O Gaúcho não tinha uma estrutura comparável ao complexo Odeon, no Rio de Janeiro. No entanto, foi o suficiente para estabelecer uma produção de discos para os mercados sulinos do Brasil, além do argentino, uruguaio e paraguaio. Os Leonetti chegaram a produzir discos inclusive para o mercado paulista, aproveitando-se de uma desavença na família Figner, como comentarei a seguir. A competição com a Odeon começou a ser controlada a partir de 1915, quando Figner ganharia na Justiça um processo por “pirataria” contra os Leonetti (pelo que sei, o primeiro processo desse tipo no país movido por empresas fonográficas). Figner provara que seus competidores porto-alegrenses haviam regravado para seu próprio selo, sem autorização, um disco cujos direitos autorais pertenciam à Casa Edison. Tratava-se do sucesso do carnaval carioca de 1913: “Cabocla de Caxangá”, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, interpretado por Kadete (FRANCESCHI, op. cit., p.180; VENDANA, op. cit., p.215-6). No início da década de 1920, os empresários gaúchos entrariam em falência.

Difícil para Fred Figner deve ter sido descobrir que o inimigo, digo, o competidor mora ao lado e é seu parente: seu irmão, Gustavo Figner, e seu cunhado, Júlio Böhm. Aproveitando-se da produção de discos dos Leonetti, Gustavo e Júlio entram em litígio com Fred e lançam seu próprio selo de discos, o Phoenix (FRANCESCHI, op. cit., p. 187-91). Nesse acordo, os empresários paulistas passariam a prover os discos do selo O Gaúcho à sua desenvolvida rede de revendedores, enquanto os Leonetti distribuiriam os discos da Phoenix para os mercados gaúcho, argentino e uruguaio.

Tal expansão do comércio fonográfico indica um feito importante: esses empreendedores aventureiros conseguiram estabelecer um comércio de discos de longo alcance geográfico. Não apenas supriram os mercados do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, como alcançaram diversos locais no Brasil, além de manterem forte interação com o cenário musical da Argentina, Uruguai e Paraguai. Sua realização é tão notável que será apenas na década de 1970 que esse sistema de distribuição de discos vai ser (minimamente) alterado no Brasil (cf. DE MARCHI, 2016).

No entanto, a década de 1930 anuncia uma outra fase para a indústria fonográfica, o que será fatal para esses pioneiros do negócio. É o momento em que as patentes para as tecnologias de reprodução sonora começam a expirar. Isso significa dizer que a competição entre os agentes desse mercado não se daria mais pelo estrito controle legal da tecnologia da informação, mas, sim, por outros meios. O escolhido foi o investimento direto de grandes empresas fonográficas em potenciais mercados ao redor do globo. No caso do Brasil, entre 1928 e 1930, instalam-se no país gigantes como Columbia Records, a RCA-Victor e a Brunswick (ainda que esta tenha operado aqui por pouco tempo).

Essas gravadoras não apenas gozavam de mais dinheiro; elas já aportaram no país dotadas de uma nova tecnologia de reprodução sonora. A partir de 1927, a tecnologia elétrica de gravação passaria a ser utilizada em larga escala, permitindo o aumento da quantidade e da qualidade da produção de discos (CHANAN, 1995). Isso significava que a produção fonográfica se tornava mais cara, logo, mais difícil para pequenos competidores.

Ao mesmo tempo, o mercado fonográfico passava por mudança entre as empresas produtoras de discos, em decorrência do fim da Primeira Guerra Mundial. Se, antes, empresas americanas, inglesas, alemãs, italianas e japonesas competiam entre si, as gravadoras que tinham sede nos países derrotados na guerra sentiriam as externalidades negativas econômicas daquele conflito bélico. Em 1919, em face dos problemas decorrentes do conflito, o grupo Lindström se transforma em Transoceanic Trading Company. Em 1925, a empresa é comprada pela Columbia Gramophone, de Londres, a qual seria o pilar, a partir de 1931, da Electric Musical Instruments, ou EMI. Essa seria uma mudança decisiva para os negócios de Fred Figner.

A nova dinâmica da competição entre empresas fonográficas faz com que os ingleses sejam mais intervencionistas na gestão de Figner do que os alemães eram. As renovações de contratos entre as partes provariam ser dolorosas para o empresário radicado no Brasil. Em 1926, os investidores ingleses exigiriam direta participação na filial brasileira, conforme descreve Franceschi (op. cit.). Gradativamente, a companhia adquire a posse dos catálogos da Odeon brasileira, com os respectivos direitos autorais das obras. Em seguida, demanda o direito de administrar a produção da empresa, inclusive no que tange à seleção musical. Em 1932, finalmente, uma nova revisão do contrato obriga Figner a lhes entregar a fábrica do Rio de Janeiro.

Banda da Casa Edison

Figner ainda tentaria se manter no ramo fonográfico como um produtor independente. Mas os tempos são outros, ou melhor, as tecnologias de reprodução sonora são outras. Pela metade da década de 1930, a indústria fonográfica no Brasil será controlada por duas corporações multinacionais, contando com algumas poucas empresas familiares brasileiras. Ao contrário do que essa frase sintética pode sugerir, o desenvolvimento da música no país não se tornará refém desse par de empresas. Na verdade, elas nem parecem ser tão poderosas diante de um novo competidor que entra com fôlego no mercado de comunicação e cultura no Brasil, o rádio (cf. DE MARCHI, 2016). Afinal, o rádio é um meio de comunicação que amadurece sob a proteção de interesses políticos e, em pouco tempo, marcará a produção cultural brasileira por mais de uma geração. Mas essa é uma história para outra coluna.

Referências

CHANAN, Michael. Repeated takes: a short history of recording and its effects on music. London & New York: Verso, 1995.

DE MARCHI, Leonardo. A destruição criadora da indústria fonográfica brasileira, 1999-2009: dos discos físicos aos serviços digitais. Rio de Janeiro: Folio Digital, 2016.

FRANCESCHI, Humberto M. A Casa Edison e seu tempo. Rio de Janeiro: Sarapuí, 2002.

VEDANA, Hardy. A Elétrica e os discos Gaúchos. Porto Alegre: SCP, 2006.

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