Terceiro dia do V FMCB homenageou Marisa Rezende com escuta guiada de suas obras

Marisa Rezende (foto: João Alves/Música e Sociedade)

 

Na sexta feira (23), o V Festival de Música Contemporânea foi direcionado a atividades que homenagearam a compositora Marisa Rezende. O público pôde assistir apresentações de trabalhos acadêmicos durante a manhã e palestras e recitais no início da tarde. A programação aconteceu no auditório do Instituto de Artes da Unicamp.

As mesas-redondas matinais tiveram como enfoque a análise musicológica de obras da compositora, contemplando boa parte do que ela considera suas principais obras, dedicada aos pesquisadores que enviaram seus trabalhos e passaram por uma avaliação. Na primeira apresentação, a pesquisadora Késia Decoté trabalhou as obras Ressonâncias (1983) e Miragem (2009); na segunda, a regente Flávia Vieira, que durante o concerto regeu uma peça para grupo de câmara da compositora, falou sobre Recorrências.

As últimas duas mesas, de Tadeu Taffarello e Potiguara Menezes, tiveram enfoque nas obras Ginga (1994), Mutações (1995) e Contrastes (2001). Todas estas peças foram apresentadas durante o recital da tarde, como foi o caso de Contrastes, ou no recital comentado no Teatro Castro Mendes com o Quinteto Pierrot, à noite. Essa configuração formou um ótimo caminho para a construção de uma escuta guiada.

A mesa-redonda da tarde foi composta por três autoridades na pesquisa em Marisa Rezende – os professores Silvio Ferraz (USP) e Marcos Nogueira (UFRJ) junto à intérprete Lidia Bazarian, para quem a compositora dedicou algumas obras para piano solo e câmara. Todas as três mesas enfocaram a liberdade composicional de Marisa Rezende, mostrando como, a despeito das diversas escolas que se formaram na música ao longo do século XX, sua escrita não se deixou levar por nenhuma fórmula pré-concebida.

Segundo Lidia Bazarian, a compositora construiu uma “linguagem pessoal à revelia das correntes composicionais em voga”. O pesquisador Marcos Nogueira reforçou o ponto ao dizer que suas composições não têm “caricatura e pré-conceitos estílisticos” ou “clichês e rupturas óbvias”, mas antes explora todo o “potencial dramático da harmonia tonal”. O professor e compositor Silvio Ferraz procurou mostrar como, na qualidade de copista da peça Ressonâncias, obteve uma análise e uma inspiração do estilo de escrita da compositora, isto é, um aprendizado composicional que inclusive inspirou uma obra de sua autoria.

Logo após a apresentação dos professores, Tatiana Dumas executou ao piano a peça Contrastes. Em seguida expôs uma análise musical que a orientou durante o processo interpretativo da peça. O Ensemble Ricciardi, sem apresentações acadêmicas, focou na obra para clarinete de Marisa Rezende, trazendo obras para o instrumento solo e com outros instrumentos de câmara.

Recital comentado
A quantidade de público que se deslocou em uma sexta à noite para apreciar as obras da compositora sem mesmo ter um escuta ou apresentação anterior surpreendeu – e mostrou a capilaridade do evento na cidade de Campinas.

O concerto com as obras de solo, duo e câmara no Teatro Castro Mendes foi preparado como um crescendo instrumental: começando com as peças para flauta solo Variações para Flauta (1995) e fechando com Ginga, para seis instrumentos, com regência de Flávia Vieira. No meio destas duas pontas, Ânima (2001), Mutações (1995), Sintagma (1988), Volante (1990) e Ciclo (2017) foram executadas.

Durante a apresentação, Marisa agradeceu enfaticamente aos intérpretes (Quinteto Pierrot e convidados). Segundo ela, “são eles que dão vida à obra”. A compositora sublinhou que sua exposição das obras “não se trata de análise teórica”. Para ela, é “sempre muito difícil” para o compositor falar de sua obra: “a obra fala por si só”, completou.

A compositora comentou sobre seu processo composicional de um ponto de vista extra-musical e sugeriu algumas imagens para que o público pudesse orientar sua escuta. Diversas pessoas que ouviram o repertório pela primeira vez confirmaram ao Música e Sociedade que puderam entender melhor o discurso musical proposto pela compositora a partir dos comentários. Um ganho para o festival, para a música contemporânea e para a cidade de Campinas, sem dúvida.

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