Richard Strauss, o discurso imperialista e “Assim falou Zaratustra”

Richard Strauss
Richard Strauss, no Teatro Real Drury Lane, em Londres, acompanhando um concerto em sua homenagem. 1947

A longa vida de Richard Strauss, um homem de seu tempo

Entre o fim do século XIX e início do século XX, poucos nomes do mundo da música geravam tanto frisson quanto o de Richard Strauss. Cercado pela atenção do campo musical, o compositor pertenceu a uma era na qual a música orquestral e grande parte do repertório operístico encontraram seu apogeu. Seu nome se encontrava ligado a ambos os gêneros: dos poemas sinfônicos às óperas, suas premières eram concorridas. Para grande parte da burguesia europeia entre o final do século XIX e início do XX, Richard Strauss não era somente um compositor, mas uma espécie de entidade.

Sua própria longevidade nos oferece os parâmetro de sua dimensão para parte do público musical de então. De fato, tivera um raríssimo privilégio: em vida, viu o culto a Wagner tomar forma e foi contemporâneo de Mahler, Bruckner, Brahms, Liszt, entre tantos outros. Ainda mais: acompanhara a evolução do discurso musical o suficiente para testemunhar a crescente expansão da tonalidade, o surgimento da atonalidade, do dodecafonismo, os discursos musicais de vanguarda, o rádio, o gramofone e os sons do Jazz, do Ragtime e dos primeiros sucessos verdadeiramente internacionais da música popular norte americana.

Richard Strauss, 1890
Richard Strauss, num raro retrato de 1890

No entanto, também viveria o suficiente para ver o declínio do mundo como conhecera. Tendo nascido antes da unificação alemã, Richard Strauss viveu o suficiente para ver a construção da identidade cultural de seu país, fortemente ancorado no universo musical, e o trágico protagonismo da Alemanha nas duas grandes guerras mundiais. Se por um lado, como dissemos, acompanhou as transformações do discurso musicais, o compositor foi testemunha da evolução dos discursos políticos românticos, a estranha  e extremamente restrita paz da Belle Époque, os canhões de agosto de 1914, e a ascensão e queda do nazismo – de cujo universo chegaria a participar ativamente.

Sendo um homem integrado a seu tempo, Richard Strauss absorveu grande parte da mentalidade hegemônica de sua época e parte significativa de sua obra aponta esta característica. Fora o compositor do momento no ápice da civilização europeia moderna e escrevera para este tempo e para este público. Tal questão não escapara aos chamados grandes homens de seu tempo. Mahler notara esta característica ao afirmar que “o verdadeiro homem de nosso tempo (era) Richard Strauss” (Mahler apud Ross, 2007, p. 25), o que progressivamente contribuiu para a separação entre os dois compositores. Mesmo Thomas Mann, em sua obra Doutor Fausto, não deixou de perceber este fato. Pela voz de seu protagonista, o compositor Adrian Leverkühn, Mann comenta sobre Strauss, dizendo que “talento ele tem, esse companheiro de bola! O revolucionário como favorito dos deuses, arrojado e conciliante ao mesmo tempo! Nunca, antes, o vanguardismo e a certeza do êxito associaram-se com tamanha familiaridade. Primeiramente, bom número de afrontas e dissonâncias e, em seguida, uma reviravolta gentil para congraçar os burguesotes e mostrar-lhes que não houve nenhuma intenção séria… Mas, que golpe de mestre, que golpe de mestre!….” (Mann, 2015, p. 183).

Richard Strauss, 1914
Richard Strauss testemunha seu triunfo na turnê americana em 1914

Desta maneira, Richard Strauss se apresentava como uma testemunha – um tanto quanto condescendente – de seu tempo. Alinhada à tamanha longevidade, este testemunho faz do compositor personagem importante para a compreensão de uma era de profundas transições políticas, sociais e musicais. E, como não poderia deixar de ser, a dimensão deste testemunho é imensa, compreendendo diversos momentos da história alemã desde sua unificação.  Neste texto, buscaremos sublinhar um deles: o crescimento do discurso imperialista alemão entre o fim do século XIX e início do XX e alguns dos motivos que levaram a composição do poema sinfônico “Assim falou Zaratustra”, baseado na obra de Friedrich Nietzsche. Este recorte nos permite analisar parte do pensamento ideológico de Richard Strauss à época, além de revelar curiosos paralelos entre sua particular leitura da obra do filósofo e o pensamento político que imperava na Alemanha do Kaiser Guilherme II. Por último, mostra-se outro importante exemplo de como a música se encontrava mergulhada nas questões políticas e nacionais alemãs.

Para tanto, é importante um breve mergulho na mentalidade daquele país ao final do século XIX.

A Alemanha de Guilherme II

Guilherme II
O Kaiser Guilherme II

Como lembra o historiador Eric Hobsbawm, a Belle Époque e sua sensação de paz e segurança existiu, mas fora o fenômeno de uma fração da burguesia europeia por um relativamente curto espaço de tempo. Para o resto do mundo e para algumas classes sociais, aquela era nostálgica jamais existira (Hobsbawm, 2002, p.384). De fato, é preciso ter cautela com este termo, pois mesmo durante a paz europeia que os anos de aparente calmaria trouxeram durante as últimas décadas da primeira guerra mundial, é possível notar que havia no ar uma tensão permanente. Ao contrário de ser um período onde as artes, a civilidade e a confiança no futuro da humanidade reinaram sem reveses, esses anos formaram uma verdadeira Era dos Impérios, citando aqui novamente Hobsbawm, onde, ao lado da sensação de paz, o desejo de guerra, os sentimentos nacionalistas e as pulsões expansionistas tomavam forma para finalmente, irromperem em agosto de 1914.

Em nenhum outro país as contradições entre paz, desejos expansionistas e orgulho militarista eram tão fortes quanto na Alemanha. Próximo ao fim do século XIX, a Alemanha começou a alimentar uma ambição de expandir seu papel político no cenário global, almejando inclusive duelar com a Inglaterra no campo econômico. O imperador Guilherme II era afeito a uma mentalidade que pregava que quanto mais poderosa for a economia de um país, maior será sua população e maior será o lugar internacional de seu Estado-Nação, num discurso que proclamava o triunfo dizendo “hoje a Alemanha, amanhã o mundo inteiro” (Hobsbawm, 2002, 440).

Esta mentalidade encontrava ecos em boa parte da população. Isto pode ser explicado olhando para a própria formação da Alemanha como país. Como aponta o sociólogo Norbert Elias em sua obra Os Alemães, o Estado alemão fora unificado sob duros processos, violentos, culminando em guerras internas, semeando entre os alemães a idealização e o cultivo de uma mentalidade militarista (Elias, 1997, p.20). Este traço da kultur alemã tomaria proporções cada vez maiores quanto mais próximo chegou-se ao fim do século.

Assim sinaliza a historiadora Barbara Tuchman, que afirma que os anos posteriores à guerra franco-prussiana ajudam a afastar uma ideia de uma Alemanha baseada em valores espirituais e cooperam na construção de intenções expansionistas na sociedade alemã, fazendo com que “desejos de guerra” tomem corpo. Deste modo, assinala a historiadora que por volta dos anos de 1890 os alemães “sentiam-se merecedores e capazes do domínio do mundo e o domínio dos melhores tinha que ser concretizado” (Tuchman,1990, pp. 498-9).

Guilherme II
O Kaiser Guilherme II revista uma tropa alemã

Para boa parte da população alemã, a própria figura do Kaiser personifica este discurso. A admiração a sua pessoa ganha impulso nos últimos anos do século XIX e na primeira década do século XX. Confiantes no triunfo da Alemanha frente às nações, parte da população alemã chega a mimetizar, inclusive, os próprios comportamentos do Kaiser. Assim diz a historiadora Barbara Tuchman, apontando que “os jovens iam ao barbeiro da Corte para ter os seus bigodes frisados em pontas (tal como Guilherme II); os oficiais e burocratas treinavam-se em olhar como o Kaiser e os patrões dirigiam-se aos seus empregados no estilo dinâmico do Kaiser” (Tuchman, 1990, p. 428). Desta maneira, formava-se para uma parcela significativa da população uma imagem heroica de seu líder, onde todas as esperanças de um futuro triunfante para a Alemanha eram depositados.

Strauss, Nietzsche, o discurso imperialista

É neste momento que a historiadora acha um paralelo entre os impulsos militaristas da população e o que ela irá chamar de reabilitação da imagem de Nietzsche na Alemanha. Quando seu livro “Assim falou Zaratustra” foi publicado nos anos de 1890, este obteve uma recepção fria dos leitores alemães. No entanto, uma década depois, tendo ganhado destaque no cenário internacional, sua obra se tornaria uma espécie de coqueluche, sendo adotada com fervor por uma parcela significativa da população.

Nietzsche
O filósofo Friedrich Nietzsche em 1882

Isto se deve, em grande parte, a uma interpretação especificamente militarista e um tanto quanto distorcida da obra de Nietzsche. Como lembra Tuchman, boa parte dos leitores alemães fixavam uma leitura da obra de Nietzsche que realçava o discurso do “domínio dos melhores”, onde uma nova aristocracia conduziria a humanidade a um nível superior (Tuchman, 1990, p. 419). Isso se explica, em parte, observando-se parte da mentalidade do período. A “Era dos Impérios” observava suas colônias à distância, com verdadeiro olhar de superioridade. Esta Era se orgulhava de seu domínio frente ao que considerava povos atrasados. As contradições da civilização europeia se agigantaram no período: num torpor de relativa paz interna, países europeus empreendiam domínios violentos ao redor do globo. Assim, como bem aponta Hobsbawm, a burguesia europeia seguia triunfante seu discurso de superioridade. Em uma passagem de seu livro A Era dos Impérios, o historiador aponta  que “em suas grandes exposições internacionais, a civilização burguesa sempre se orgulhara do triunfo triplo da ciência, da tecnologia e das manufaturas. Na Era dos impérios ela também se orgulhará de suas colônias” (Hobsbawm, 2002, p. 106).

Deste modo, Zaratustra, com sua representação do super-homem, era reinterpretado como uma espécie de justificativa desta mentalidade imperialista europeia. Assim, o Zaratustra de Nietzsche inundava a mentalidade europeia, em especial a alemã, da esperança do progresso humano, alinhavada tragicamente com uma desilusão com a democracia e a ideia de igualdade entre os homens (Tuchman, 1990, p. 419).

Folha de rosto da primeira edição do livro "Assim falou Zaratustra"
Folha de rosto da primeira edição do livro “Assim falou Zaratustra” de F. Nietzsche

É neste momento da história que Assim falou Zaratustra chama atenção do compositor Richard Strauss. Como apontamos, Strauss era um homem integrado em boa parte com a mentalidade hegemônica do período. Deste modo, apoiava o discurso imperante na época que advogava pelo “triunfo dos grandes”. Como exemplo, basta lembrar sua posição frente a guerra dos Bôeres que a Inglaterra empreendia contra a África do Sul, sua colônia. Para o compositor, a guerra se justificava e ele esperava um triunfo inglês alegando que “os Bôeres são um povo bárbaro, atrasado, que vive ainda no século XVII. Os ingleses são muito civilizados e muito fortes. É absolutamente recomendável que os fortes triunfem” (Strauss apud Tuchman, 1990, p. 440).

Desta maneira, é com a leitura mais integrada à mentalidade expansionista e imperialista de seu tempo que Richard Strauss se apropriará da obra de Nietzsche. Segundo as palavras do próprio compositor, esta obra – vale ressaltar, esta leitura específica da obra –  merecia ser posta em bronze: ao compor seu poema sinfônico, desejava “transmitir, através da música, uma ideia do desenvolvimento da raça humana, desde sua origem, através das várias fases da sua evolução, quer religiosa, quer científica, até a ideia de Nietzsche do super-homem” (Strauss, apud Tuchman, 1990, p. 421).

Richard Strauss, Assim falou Zaratustra
A primeira página do poema sinfônico “Assim falou Zaratustra”.

A obra estreia em Berlim em 1896 e, devido o sucesso da primeira noite, tem outra apresentação em apenas três dias. Apesar do dividido discurso dos críticos, onde um grupo louvava a nova obra de Richard Strauss e o outro a condenava (Tuchman, 1990, p. 422), o poema sinfônico triunfa para além da Alemanha, sendo apresentado em Paris, Chicago e Nova York em menos de um ano após soar pela primeira vez diante de uma plateia entusiasmada. Richard Strauss conseguira, mais uma vez, alcançar a atenção do público das salas de concerto mais importantes do período.

Assim, através da concepção deste poema sinfônico, podemos penetrar não somente nos ideais do compositor, como também perscrutar parte da mentalidade hegemônica alemã do final do século XIX e início do XX. De alguma forma, esta obra, à revelia do próprio compositor, ilustra a dimensão da tragédia que a Europa mergulharia a partir de 1914. Ao sintetizar boa parte dos discursos em voga na Alemanha do final do século XIX, apresenta-nos partes do caminho por onde a sociedade burguesa da Belle Époque encontrou seu próprio fim.

Ao ilustrar, de certa forma, o triunfo de sua geração, Richard Strauss fez assim parte de um conjunto de artistas que puderam captar o momento singular que vivia a Europa naquela época. Havia no ar um desejo de guerra e muitos artistas pressentiam o momento – alguns com ansiedade, outros com temor. Em sua obra Leviatã, Thomas Hobbes apontava que “a guerra não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas é suficientemente conhecido” (Hobbes, apud Hobsbawm, 2002, p. 418).

Muitos perceberam o chamado. Richard Strauss, de certa maneira, musicou-o.

Referências

ELIAS, N. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

HOBSBAWM, E. A era dos impérios. São Paulo: Paz e Terra, 2002

MANN, T. Doutor Fausto: a vida do compositor alemão Adrian Leverkühn narrada por um amigo. São Paulo, Companhia das letras, 2015

ROSS, A. The rest is noise: listening to the twentieth century. Nova York: Picador, 2007

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