O surgimento do LP no palco político-cultural brasileiro

LP

A atualização dos suportes de produção e veiculação do material musical sempre foi uma premissa básica para a indústria fonográfica. O long play – mais conhecido por LP – foi um dos suportes que contribuiu de forma significativa para a consolidação do próprio mercado musical. Atualmente o LP possui um apreço nostálgico por seus admiradores, ainda que não tenha mais o protagonismo de outrora. No Brasil, a implantação do LP se fez de forma paulatina, até porque os aparelhos de som e de disco demoraram a se popularizar entre as camadas médias da sociedade.

LP Carnaval
“Carnaval” foi o primeiro LP lançado no Brasil.

Foi em janeiro de 1951 que o selo Capitol/Sinter lançou o primeiro LP fabricado no Brasil, intitulado Carnaval. Nele se reuniram sambas e marchas, interpretados por Heleninha Costa, Geraldo Pereira, Os Cariocas, dentre outros, que seriam destinados à comemoração do carnaval daquele ano. Aos poucos as demais gravadoras passaram a investir também no LP, a exemplo da Continental, RCA Victor, Musidisc, Odeon, dentre outras, a partir de um repertório com enfoque no samba-canção, baião, bolero e tango. O selo Capitol era representado no Brasil pela Sociedade Interamericana (Sinter), que seguiu a tendência estadunidense de incentivar um mercado consumidor estável e garantir um ascendente lucro para as gravadoras. Em 1952, mais uma vez a Sinter (já como gravadora) produziu o segundo disco – cujo título foi Parada de Sucessos – que também se direcionou a um repertório sambístico.

A partir destas informações podemos nos perguntar o porquê do samba ter sido priorizado no momento de inserção do LP no mercado musical brasileiro. É notório que este fato não foi um desdobramento pontual e isolado. O samba enquanto gênero musical oficialmente registrado como símbolo da identidade nacional já vinha sendo uma estratégia política desde o período estadonovista (1937-1945). Mesmo que os representantes do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) dessem sua predileção às músicas de caráter popular-folclórico para a questão da brasilidade, eles passaram a se aproximar cada vez mais do samba, já que este conquistava público e espaços de divulgação. No Rio de Janeiro, por exemplo, à medida que o samba se afirmava como expressão popular e urbana, adquiria também maior difusão perante os programas radiofônicos.

O LP “Velha Guarda”

O Estado Novo se articulou ideologicamente para converter a imagem do malandro à figura do operário de fábrica. Neste sentido, o DIP incentivou compositores a exaltar a ideia de que o trabalho dignificava o indivíduo; buscou também construir uma opinião positiva do governo junto aos artistas, de modo a criar, em 1939, o Dia da Música Popular Brasileira, que elencou o samba-exaltação como uma manifestação tipicamente nacional. Tal acontecimento nos indica que não havia como negar a popularidade do samba, que passou a ter uma adesão crescente pelos ouvintes, em especial nas rádios brasileiras.

A década de 1950 continuou sentindo a repercussão deste panorama político e cultural em torno do samba. Não à toa, a incipiente indústria fonográfica brasileira, em atuação conjunta com o sistema radiofônico em território nacional, contribuiu para legitimar oficialmente o samba como musicalidade brasileira dentro e fora do país. Portanto, as possibilidades de incentivo governamental e de geração de lucros estariam garantidas para ambos.

É válido lembrar que o surgimento do LP no Brasil veio acompanhado de outras inovações tecnológicas midiáticas, a saber: a televisão (1950), o disco de 45 rotações (1953), o aperfeiçoamento do processo de gravação do som, com o emprego da fita magnética e da máquina de múltiplos canais (que substituíram o antigo registro de cera), a tecnologia Hi-Fi e as modernas eletrolas (SEVERIANO & MELLO, 2015, p. 242). Sendo assim, podemos considerar que todas estas inovações foram possíveis a partir do processo de desenvolvimento da modernização brasileira, inserindo-se (ainda que de modo periférico e conservador) no capitalismo industrial e global.  Desta maneira, novas escutas e novas tecnologias estavam emergindo no campo do entretenimento (VICENTE, 2014, p. 117).

Dorival Caymmi e seu LP Canções Praieiras.
1954 foi o ano de Dorival Caymmi e seu LP Canções Praieiras.

Além do samba-exaltação, entre os anos de 1946 e 1957 o samba-canção e o baião ganharam destaque no cenário artístico-cultural brasileiro. Logo após esses anos, a Bossa Nova surgiu e alcançou grande aceitação perante artistas e público. A indústria fonográfica, evidentemente, não deixou de produzir e lucrar com estas vertentes musicais também. Durante a década de 50 os primeiros álbuns de Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga e João Gilberto foram lançados, sendo eles respectivamente Canções Praieiras (de 1954, pela gravadora Odeon), Xamego (de 1958, pela RCA Records) e Chega de Saudade (de 1959, pela Odeon).

Como dito anteriormente, o LP se tornou popular mais tardiamente, quase uma década depois. Foi a partir da Bossa Nova que o LP passou a ser utilizado como uma forma artística, tendo um compromisso de desenvolver álbuns musicais mais densos, elaborados e, então, conceituais (VICENTE, 2001, p. 11-12). Nos anos 70, para as grandes gravadoras (as majors), o LP (em termos de música, capa e encarte) trazia consigo a ideia de que um álbum-conceitual teria uma tiragem garantida (ou seja, uma lucratividade ininterrupta e perpetuada por longo prazo), bem como promoveria o artista e a lógica fonográfica. Logo, neste momento houve a consolidação do LP como álbum-conceitual e obra artística: mais coesa, coerente em si mesma e em sua proposta estética.

o LP Chega de Saudade
O LP Chega de Saudade de João Gilberto.

Não se deve deixar de mencionar que a indústria fonográfica ocidental teve como eixo norteador a transformação da música enquanto uma mercadoria que necessariamente deveria se tornar rentável. Retomando estudos de Adorno e Horkheimer, já nos anos de 1940, estes teóricos nos atentavam para o fato de que o artista tinha se tornado um personagem autônomo na sociedade, uma vez que o processo de modernização capitalista estimulou a liberdade e o anonimato do mesmo, bem como a sua perda de vínculos sociais (fossem eles aristocráticos ou religiosos/místicos). Entretanto, ressaltaram ainda que, contraditoriamente, os vínculos no século XX passaram a serem outros: as diretrizes do mercado.

Dessa forma, “a vida cultural, agora tornada indústria, herdou a produção em série, a padronização, a repetição, ou seja, a pseudo-individuação” (DIAS, 2008, p. 30-31). Porém, tendo em vista “parte do movimento global de reprodução capitalista e possuidora de todas as características fundamentais deste (devidamente adaptadas à sua posição no contexto global), a indústria fonográfica brasileira segue caminhos muitos particulares, apresentando forte vinculação a manifestações culturais locais (DIAS, 2008, p. 35). Somado a isso, como bem argumentou Renato Ortiz “uma vez que a mercantilização da cultura é pensada sob o signo da modernização nacional, o termo ‘indústria cultural’ é visto de maneira restritiva. Como para esse tipo de pensamento a industrialização é necessária para a concretização da nacionalidade brasileira, não há por que não estender este raciocínio para a esfera da cultura” (ORTIZ, 1989, p. 37).

Isto significa compreender que o surgimento do LP no Brasil, e mesmo as primeiras gravações do início do século XX e a instalação das gravadoras em território nacional, foram inseridos nessa lógica de tendência global, sabendo aproveitar da “matéria-prima” local para se propagar o espírito identitário (o que trouxe também inovações estéticas) e, ao mesmo tempo, para formar e fortalecer nichos de mercado.

Bibliografia

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

DIAS, Marcia Tosta. Os donos da voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

MELLO, Zuza Homem de; SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras – VOL. 1: 1901-1957. 7. ed. São Paulo: Editora 34, 2015.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.

VICENTE, Eduardo. Música e disco no Brasil: a trajetória da indústria nas décadas de 80 e 90. 2001. Tese (Doutorado em Comunicações) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

VICENTE, Rodrigo Aparecido. Música em Surdina: sonoridade e escutas nos anos 1950. 2014. Tese (Doutorado em Música) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2014.

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