O homem Johann Sebastian Bach e o mundo social, no livro “Bach’s Changing World”

A Leipzig de Johann Sebastian Bach
Leipzig, em 1749

 

Poucos personagens na história da música suscitam tanta devoção quanto Johann Sebastian Bach. Vindo de uma família de músicos, herdou sua profissão praticamente da mesma maneira que um artesão herdava o ofício do pai. Reconhecido como um dos maiores artistas da história, Bach nasceu em um mundo no qual o conceito de obra de arte ainda não havia se estabelecido em sua concepção moderna. De fato, vivera num mundo onde a própria modernidade apenas dava seus primeiros passos e onde a mentalidade esboçava os primeiros avanços rumo ao mundo iluminista e racional, enfrentando grande resistência do hegemônico pensamento conservador. Filho de uma era de profundas transformações, Bach foi, para seus contemporâneos, apenas mais um num cenário em constante metamorfose.

Deste modo, encontrar a dimensão exata de Bach para seus contemporâneos não é tarefa fácil. Para além de toda a dificuldade suscitada pelos extensos lapsos de documentação e pela aura divina que reveste a vida deste músico de Eisenach, o próprio mundo em transformação no qual Bach passou sua vida apresenta constantes desafios para uma análise que pretenda encontrar uma imagem ao mesmo tempo desmistificadora e historicamente honesta deste compositor. É justamente este desafio que o livro “Bach’s changing world”, organizado pela musicóloga Carol K. Baron busca enfrentar.

Dividido em uma série de ensaios, este livro busca analisar diversos aspectos deste mundo social em transformação e o impacto que este produziu na obra e na carreira de Bach em um período específico de sua carreira: os anos que o compositor passou em Leipzig desde sua saída de Köthen, em 1723, até sua morte ocorrida no ano de 1750. Este recorte na vida do compositor prova-se acertado, pois seus anos em Leipzig são aqueles nos quais Bach é colocado mais em contato com este mundo em convulsão e onde as contradições deste mundo, as oportunidades possibilitadas pelas novas estruturas sociais e o contraste com o pensamento conservador se tornam mais evidentes.

J. S. Bach retrato
Johann Sebastian Bach

O livro abre com o ensaio da musicóloga Carol K. Baron acerca das profundas mudanças políticas, sociais e econômicas que a cidade de Leipzig enfrentava durante o período em que Bach lá viveu. Neste ensaio, tanto as relações entre Bach e a cidade são esboçadas, quanto são analisadas as relações de Leipzig com o universo de língua alemã do período. Buscando traçar a dimensão de Leipzig no universo alemão do período e a dimensão do homem Bach dentro desta sociedade, este ensaio serve como uma espécie de introdução a todos os demais. Ainda de Baron, o segundo ensaio busca entender as convulsões religiosas nas quais a sociedade de Leipzig atravessava no período. Assim sendo, busca mostrar o cenário onde filósofos, teólogos, pietistas, progressistas e místicos viviam em constante embate, produzindo um complexo caleidoscópio de ideologias e discursos.

O terceiro ensaio, de John le Cleve, se ocupa da moral e da vida intelectual do período, produzindo um estimulante artigo que amplia os apontamentos feitos por Baron nos dois ensaios anteriores.  O quarto ensaio, escrito por Joyce Irwin, se ocupa do painel da música religiosa do período em relação ao embate religioso entre os pietistas e as demais posições religiosas luteranas, buscando entender a posição de Bach tanto em relação ao campo religioso quanto ao campo musical, sendo um ensaio revelador acerca do espaço dos possíveis e do universo das tomadas de posição na carreira do compositor.

A Igraja de São Tomás, onde Johann Sebastian Bach foi mestre de capela
A Igreja de São Tomás, onde Johann Sebastian Bach foi mestre de capela

Nos três últimos ensaios, somos apresentados ao universo musical de Bach dentro da esfera política e social da época. Ulrich Siegele nos apresenta os jogos políticos e sociais que culminaram na contratação de Bach como mestre de capela da igreja de São Thomas, enquanto Tanya Kervokian analisa a recepção da música religiosa em Leipzig durante os anos de 1700-1750 num ensaio extremamente curioso e revelador. Por fim, em outro ensaio estimulante, Katherine R. Goodman disseca as questões de gênero envolvendo os empreendimentos musicais nas casas de café da cidade, apresentando a condição da mulher na vida musical de Leipzig.

O livro encerra-se com a tradução de um tratado do músico Johann Kuhnau, antigo mestre de capela da igreja de São Thomas do qual Bach herdou o cargo, acerca do tratamento musical do texto religioso.

Rico em dados e revelações, Bach’s changing world é um livro importante para aqueles que buscam conhecer o mundo social no qual viveu Johann Sebastian Bach indo além do universo mistificador ou puramente biográfico mais comumente disseminado.

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