O concerto de baladas e o mercado musical para as massas no século XIX

St. James hall concerto de bladas
St. James Hall

 

O concerto de baladas foi um dos grandes responsáveis pela disseminação das canções populares no século XIX. Neste sentido, este gênero de concertos é o revés da gala de ópera, pois se esta tinha como base o repertório operístico, o concerto de balada focava no que havia de mais moderno dentro do repertório da música popular. Numa era onde o mercado de canções populares ampliava-se de maneira exponencial, esses concertos ajudaram tanto na disseminação de um repertório focado no gosto popular, fazendo a vida de compositores, músicos e empresários musicais do ramo, quanto auxiliaram na criação própria de um mercado musical cujas bases estavam assentadas no lucro rápido, na competição de mercado e, principalmente, na novidade.

De fato, neste ramo de atividades musicais, a lógica de mercado imperava como em nenhum outro até então. Empresários musicais, compositores e intérpretes, todos buscavam um lugar ao sol num duelo travado com todas as armas possíveis. É dentro deste universo que surge uma prática que perdura até hoje: no intuito de divulgar sua lista de compositores e canções, casas editoriais pagavam uma espécie de jabá para que os cantores interpretassem seus artistas, ampliando a demanda de partituras num mercado em ebulição.

No último quarto do século XIX, a Europa estava começando a descobrir o poder do mercado para as grandes massas. Neste viés, a cultura foi um dos setores mais afetados pela crescente invasão da lógica de mercado. O poder de se fazer fortunas cobrando centavos era uma novidade que surgia tanto dos avanços tecnológicos encontrados pelo mercado como de uma grande parcela de trabalhadores e da pequena burguesia que encontravam agora um espaço dentro da crescente lógica de consumo. Como lembra o historiador Eric Hobsbawm, “o significado coletivo da acumulação de fregueses, mesmo pobres, agora era reconhecido pelos homens de negócios. Os filósofos políticos temiam a emergência das massas, ao passo que os vendedores a saudavam” (Hobsbawm, 2012, p. 78).

Arabella Godard
A pianista Arabella Godard

A reação por parte dos idealistas musicais contra o concerto de baladas era barulhenta. Um crítico do The Times se queixava que o repertório era cada vez mais tomado por simples “cançõezinhas” e que estes concertos deveriam elevar o nível de suas apresentações (Weber, 2011, p. 404). Num universo musical cada vez mais cindido, músicos clássicos atraídos por este crescente mercado chegavam a arriscar suas carreiras se apresentando nesses eventos. Uma das vítimas de tais ataques vindo dos idealistas foi a pianista clássica Arabella Goddard, respeitada intérprete de Beethoven, que foi achincalhada pelo já referido jornal (Weber, 2011, p. 405). No entanto, transformado numa verdadeira máquina de se fazer dinheiro, apesar do que dissessem os idealistas, nada mais conseguia deter o concerto de baladas.

Para medir a amplitude do impacto do concerto de baladas na vida musical europeia do período, basta dar uma olhada nos números. Um das séries mais famosas deste gênero de concerto foi a empreendida por John Boosey, na Inglaterra, a partir do ano de 1867. Sócio de uma importante casa editorial inglesa, Boosey empreendeu concertos de baladas duas vezes por semana em uma sala que comportava duas mil pessoas, passando praticamente a monopolizar o mercado de canções populares na Inglaterra no período. Existem relatos de concertos empreendidos por Boosey cujo público chegou alcançar até 17.000 pessoas (Weber, 2011, p. 400).

Nestes concertos, o programa variava basicamente entre três principais gêneros vocais: a balada para solista, o glee e canções a várias vozes para coro de tamanho mediano. Essas peças corais tinham a função de abrir e fechar cada uma das partes do programa. O acompanhamento instrumental ficava a cargo de um instrumentista, geralmente pianista, que também fazia as vezes de diretor de espetáculo. Algumas peças, em especial as peças corais, eram também acompanhadas de quarteto de cordas.

Um fenômeno interessante nos traz a dimensão da ingerência do campo econômico dentro do campo musical concernente aos concertos de balada. No início, uma significativa parte do repertório apresentado focava em canções antigas que foram se estabelecendo ao longo dos anos dentro do universo musical inglês. Algumas canções apresentadas num concerto de baladas chegavam a datar do século XVII. Como lembra o historiador William Weber, nas primeiras temporadas, os programas incluíam tanto peças antigas quanto modernas, fazendo com que esses concertos adotassem um aspecto antiquado. Boosey, no entanto, com seu faro para os negócios, não tardou a perceber o espírito da época e começou cada vez mais a investir no repertório popular contemporâneo. Os folhetos de concerto do ano de 1870 demonstram bem essa prática dizendo que “os programas estão formados quase exclusivamente por música moderna e incluem algumas canções novas e baladas de compositores populares, escritas exclusivamente para estes concertos” (Weber, 2011, p. 401).

Num universo cada vez mais domado pela lógica do mercado, os concertos de balada abriram caminho para os Music Halls e os café concertos, apresentando-se como uma sedutora forma de entretenimento cultural. Esses concertos representavam o âmbito vocal de uma verdadeira revolução da música popular ocorrida durante o século XIX. Detentora agora não somente de um complexo mecanismo de produção e distribuição independente da música erudita, a música popular possuía também uma crescente independência estilística, formando seu próprio repertório, estabelecendo seus próprios clássicos e consagrando seus próprios artistas.

Estava aberto o caminho para o século XX.

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Referências

HOBSBAWM, E. A era dos impérios. São Paulo: Paz e Terra, 2012

WEBER, W. La granTransformaciónenelgusto musical: laprogramación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

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