O conceito de Campo em Pierre Bourdieu – II

Conceito de campo Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

A contribuição do conceito de campo de Pierre Bourdieu nos permite enxergar a sociedade não como um sistema plano de relações diretas, com uma cultura comum ou uma única autoridade centralizada, e sim como um sistema “tridimensional” de relações entre campos relativamente autônomos que possuem suas regras internas. Cada campo, dentro de sua autonomia possui suas regras internas e suas próprias leis de funcionamento dos jogos.

As leis internas de cada campo são o  seu princípio de unidade, intransferível a outros campos sociais. O campo da economia, por exemplo, possui suas próprias leis internas, já o do Direito, outras leis, e o do artístico também outras. Aquilo que é valorizado num campo pode ser depreciado em outro. O impacto de um acorde de Tristão no campo musical foi gigantesco. Seria absurdo procurar algum impacto deste fenômeno dentro do Direito ou da Religião…

As regras da arte de Pierre Bourdieu
As regras da arte de Pierre Bourdieu

O avanço que o conceito de campo oferece às ciências sociais, portanto, é gigantesco. Escapa-se à ilusão de que todas as forças contidas na sociedade refletem de maneira igual em todos os espaços. As interações entre os campos fazem com que visualizemos que cada espaço interno, por possuir suas próprias leis, receberá a interferência externa de maneiras diversas (Loyola, 2002, p. 67). Imaginemos um raio de luz que, ao atravessar um cristal, tem sua direção e seu sentido, alterados. Num certo sentido, essas interferências externas agem da mesma maneira. Uma crise financeira será compreendida e absorvida de maneiras diversas nos campos da economia e das artes. O significado de uma crise reflete de maneira diversa num espaço onde a luta se desenvolve pela hegemonia do poder econômico e num espaço que possui, por lei interna, a negação dos fatores econômicos, como o campo artístico.

Nas artes, o processo de autonomia se acelera no século XIX. Vários fatores precisam contribuir para a emergência deste campo autônomo. No século XIX, vemos a constituição de um público maior e socialmente mais diversificado de consumidores de arte. Bourdieu coloca que tais consumidores, ao mesmo tempo que permitiam condições mínimas de independência econômica, também concedeu um princípio de legitimação do campo (2011, p. 99). Paralelo ao desenvolvimento de um público de consumidores, vemos o crescimento do número de produtores (artistas) e empresários (editores, revistas especializadas…) dos bens simbólicos (objeto de arte). Todo esse movimento impulsiona a multiplicação de instâncias de consagração (museus, salas de concerto, escolas de arte, academias…), que duelam pela legitimidade cultural. Todos esses agentes internos estão dispostos a levar em conta somente as leis internas desse novo espaço autônomo, alterando, inclusive, as relações que os artistas tem com os “não artistas”.

Como podemos ver no caso das artes, a constituição de um campo acontece paralelamente ao desenvolvimento de uma infraestrutura social que possibilita sua autonomia. O desenvolvimento de tal mercado das artes possibilita o aparecimento de uma teoria purista de arte. É o fenômeno da autonomia do campo artístico que permite o olhar desinteressado que produzirá o esteta, que permite que se desenvolvam maneiras de apreciação puramente artísticas (Bourdieu, 2011, p. 103). Liberta-se, assim, o desenvolvimento de todo um campo alheio a interferências religiosas ou do poder político, que exerciam poder direto no espaço artístico até então.

A autonomia, como podemos ver, é o que possibilitou o desenvolvimento do mundo artístico como o conhecemos hoje. Atualmente, a autonomia da música é contestada enquanto ideologia por importantes musicólogos como Richard Taruskin. Em seu livro, “The danger of music”, o musicólogo irá apresentar o argumento de que o que antes possibilitou o pleno desenvolvimento do fazer artístico, hoje é justamente o que estrangula o meio, produzindo um efeito danoso de marginalização do artista na sociedade.

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Referências

LOYOLA, M. Pensamento contemporâneo, Pierre Bourdieu. Rio de Janeiro: Ed Uerj, 2002

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2012

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