O Conceito de Campo em Pierre Bourdieu – I

Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

Campo é um conceito criado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Referência para o Música e Sociedade, este sociólogo revolucionou as ciências sociais se tornando um dos seus principais nomes da história. A sociologia de Bourdieu é hoje base para muitos dos musicólogos mais importantes da atualidade. Seus conceitos são amplamente usados na história cultural, linha de pesquisa que vem crescendo cada vez mais dentro da musicologia.

Uma das principais contribuições de Bourdieu vem do conceito de campo. Para o sociólogo, um campo é um espaço de lutas simbólicas onde agentes internos assumem posições específicas, a cada momento do jogo, em busca de defender um monopólio específico de um objeto em disputa. Cada campo possui um interesse específico que não é dividido por outros campos, ou seja: o objeto não é do interesse de agentes alheios ao campo determinado. Igualmente importante: apesar de possuir características gerais que podem ser encontradas em outros campos, um campo específico possui um conjunto de leis internas não compartilhado por aqueles que não pertencem a ele. Portanto, para adentrá-lo é necessário ter o conhecimento internalizado de suas leis específicas e atribuir valor ao objeto em disputa. Portanto, deve-se possuir um capital simbólico específico e um conjunto de crenças específico.

O fato de cada campo possuir suas próprias regras faz com que a disputa em jogo deva ser

As regras da arte de Pierre Bourdieu
As regras da arte de Pierre Bourdieu

analisada especificamente em cada caso. No entanto, o que se apresenta como uma propriedade geral de todos eles são as lutas entre os pretendentes a se estabelecer e os dominantes que tentam defender o monopólio excluindo a competência e o direito do novo ingressante. Logo, o embate se dá entre os defensores de uma ortodoxia e os pretendentes a estabelecer uma nova doxa (um conjunto de crenças) – os “hereges”, dispostos a adotar técnicas específicas para subverter o campo. O embate entre os defensores da arte tradicional e os vanguardistas no início do século XX é um bom exemplo da luta entre os estabelecidos e os pretendentes.

Podemos entender que no centro do campo musical no início do século XX estavam as disputas entre os vanguardistas e os tradicionalistas pelo monopólio de consagração e de definição do conceito de música. Ou seja, pelo direito de definir quem é e quem não é compositor (consagração) e o que é ou não música (definição). Para um tradicionalista, Schoenberg, Webern e Berg, por exemplo, não fazem música e sim “produzem balbúrdias e sons desconexos”. O que almeja, no entanto, os pretendentes, é uma subversão da estrutura do campo: justamente ocupar o espaço dos estabelecidos, tomar-lhes seus “clientes”, seus “fiéis”, definir que o que fazem é música, estabelecendo-se como uma nova doxa no campo musical. Para isso, estabelecem estratégias, defendem novas crenças e novos discursos.

Capa da edição brasileira do livro Harmonia de Arnold Schoenberg
Capa da edição brasileira do livro Harmonia de Arnold Schoenberg

O livro “Harmonia” de Schoenberg, pode ser entendido neste contexto como um novo testamento disposto a se impor no meio musical, expulsando os velhos sacerdotes para fora do templo. Para isso, o novo integrante, Schoenberg, deveria provar pleno conhecimento das técnicas e leis específicas do campo, ou seja, provar possuir o capital específico deste, provando conhecimento e interesse no jogo em questão, e propor estabelecer um novo paradigma interno. Seu livro de harmonia, neste caso, é seu manifesto, sua profecia.

É importante notar que entre ambos, dominantes e pretendentes, havia o acordo implícito de que o objeto em disputa (a música) é de interesse mútuo. Não joga este jogo específico o interessado pela música ligeira ou qualquer pessoa não-musical, assim como não é interesse de disputa de um torcedor fanático do futebol a final da liga de basquete americana… Ou seja: um problema musical é um problema que os músicos e os amantes de música definem como tal, um problema que ambos reconhecem ser legítimo. A um juiz, por exemplo, se espera especificamente que tenha interesse nas questões impostas pelas problemáticas da lei, e não que saiba explicar o porquê Schoenberg deve ou não ser entendido como uma ortodoxia reconhecida. Seria impensável o oposto. Isto não implica, obviamente, que um juiz não possa ter interesses musicais e sim que, se os tiver, está disposto a creditar valor nas questões especificamente musicais em disputa e possui os conhecimentos específicos sobre as leis do campo e o objeto duelado, pertencendo, assim, ao campo musical dentro de uma função específica interna.

Os conceitos e teorias de Pierre Bourdieu provaram ser a superação de uma análise das questões artísticas, cujo foco se dá somente nas questões internas da área (história da estética, dos compositores, da composição…) ou no seu extremo oposto, a análise social que ignora que questões internas como a estética são fundamentais, também, para o entendimento mais amplo dos fenômenos artísticos. A obra de Bourdieu, assim, contribui para a sublimação de certas taxinomias impostas pelos estudos acadêmicos, taxinomias estas entendidas por Bourdieu como falsos problemas.

………

Referências

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2012

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

BOURDIEU, P. Questiones de sociologia. Madrid: Akal, 2008

LOYOLA, M. Pensamento contemporâneo: Pierre Bourdieu. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002

…….

Importante: Os textos deste espaço são autorais, exclusivos e de propriedade do Música e sociedade, tendo todos seus direitos reservados conforme previsto em lei. Compartilhamentos em redes sociais e outros sites, contanto que contenham a menção da fonte, são muito bem vindos e não requerem autorização prévia.

Comentários

comentários

1 COMENTÁRIO

  1. Que ótimo texto! Sou estudante de Ciências Sociais e fico feliz de ver análises sobre a música a partir de teorias da sociologia de forma tão concisa. Como o próprio texto diz, ou as análises geralmente são de um âmbito muito macro, ou são de um âmbito muito micro, Bordieau soube equilibrar as duas.

    Obrigado por nos disponibilizar uma síntese tão boa!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here