O Beethoven alemão, austríaco e francês: música, política e nacionalismos no século XIX

Monumento a Beethoven em Bonn

Um Beethoven alemão, austríaco e francês

Beethoven, personagem central na ascensão do conceito de obra de arte musical.
Beethoven, personagem central na ascensão do conceito de obra de arte musical.

Desde o século XIX, muito se discute sobre o papel da imagem de Beethoven na música e na carreira musical de diversos compositores. Sendo uma espécie de pai fundador do campo musical deste século, o compositor foi um verdadeiro objeto de disputa entre compositores que pretendiam colocar-se como verdadeiros herdeiros de sua música. Passando por músicos de renome como Wagner, Liszt e Brahms, a imagem de Beethoven vai sendo moldada conforme a posição adotada por cada um dos compositores, ajustando-se, ora aqui ora ali, às necessidades argumentativas de cada um deles: se Beethoven é o paradigma da música instrumental sinfônica pura para os defensores da música absoluta como Brahms e o crítico musical Eduard Hanslick, para Wagner sua obra aponta na direção da obra de arte total, justificando as pretensões estéticas wagnerianas, construindo um compositor diametralmente oposto ao seus adversários musicais. Assim, cada compositor pretenderá construir a imagem de Beethoven como a idealização perfeita de suas próprias ambições musicais, gerando um verdadeiro arsenal de imagens e interpretações contrastantes deste compositor e sua obra.

No entanto, o legado de Beethoven não será importante somente para o campo musical, ultrapassando muito os limites deste. Se dentro do campo da música o compositor foi um verdadeiro objeto em disputa, é extremamente interessante notar como será também um importante elemento de debate entre os Estados nacionais europeus durante o século XIX, revelando aspectos fundamentais do papel da música na política deste século. Neste sentido, Beethoven será utilizado para legitimar regimes e ideologias completamente opostas. Do conservador império austro-húngaro, passando pela unificação alemã até os ideais republicanos franceses, sua obra será utilizada ora como elemento de orgulho nacional, ora como um símbolo de ideais políticos, que embora nacionais, serão, por outro lado, mais universalizantes.

Assim, é importante notar que as pluralidades das imagens de Beethoven e sua obra possuem duas dimensões contrastantes que se encontram na base das questões acerca da política e sua música: a dimensão nacional e a universal. Se por um lado Beethoven pode ser celebrado como um compositor que fala “pra a humanidade”, celebrando a “união de todos os homens que se tornam irmãos”, por outro sua música se encontra fortemente ligada a um nacionalismo que, curiosamente, apresenta-se tanto como alemão e austríaco.

O Beethoven austríaco

Monumento a Beethoven em Viena
Monumento a Beethoven em Viena

Se Beethoven pode ser louvado como um compositor da Alemanha pelo fato de ter nascido em Bonn, sua cidadania austríaca será reivindicada por aqueles que fazem questão de ressaltar que o compositor despontará para a glória em Viena. Nesta cidade, o nacionalismo que liga Beethoven ao império austro-húngaro se desenha desde muito cedo, ainda na época em que se encontrava vivo. Em 1822, decepcionado com o cenário musical vienense que se apresentava pouco propenso à sua obra, Beethoven inclina-se a buscar na Alemanha espaço para novas criações. Isto acaba gerando a reação de alguns admiradores vienenses que escrevem ao compositor um apelo no qual afirmam que “mesmo se o nome e as criações de Beethoven pertencem ao mundo inteiro aonde a arte é bem acolhida, é a Áustria que tem o direito de reivindicá-los como sua” (Buch, 2001, p. 121). A carta segue com referências veladas à música de Rossini que é julgada como uma brincadeira frente aos “signos sagrados” da música beethoveniana, mostrando que desde aquela época sua obra é vista pelos seus admiradores como um motivo de orgulho patriótico.

Um outro momento da vida de Beethoven reforça esta união entre a Áustria e sua música: sua participação no congresso de Viena, realizado em 1814. Neste congresso, que visava estabelecer as diretrizes políticas da Europa após as guerras napoleônicas, Beethoven triunfa como o maior representante musical de seu tempo. Nesta ocasião, o uso da arte musical não se resume ao mero entretenimento ou ao enfeite: como aponta o historiador Esteban Buch, a música será um dos triunfos austríacos do congresso, sendo colocada a serviço da honra nacional (Buch, 2001, p. 102).

Para a Áustria, a importância da figura de Beethoven continuará crescendo ao longo do século e além. Em outro momento delicado de sua história, Beethoven aparecerá como uma espécie de embaixador diplomático da Áustria: em 1927, na comemoração do centenário, o país buscará reservar para si um papel internacional, colocado em xeque após a primeira guerra e o fim do império austro-húngaro. Assim, neste país, as comemorações do centenário da morte do compositor ocorreram sob o signo da universalidade da obra de Beethoven, onde o músico é visto como um elemento agregador entre as nações (Buch, 2001, p. 259). Curiosamente, este papel diplomático da música de Beethoven para a Áustria esteve presente anos antes em Viena, na comemoração do centenário de nascimento do compositor. Obviamente, o choque entre o nacionalismo e as pretensões universais não fizeram-se ausentes nas duas oportunidades. No entanto, apesar de elementos e intenções puramente nacionais contrastarem então com as pretensões de colocar a música de Beethoven como um elemento universal, ainda não chegara o momento onde tais forças seriam colocadas em teste. A história esperaria a primeira guerra mundial e também ascensão de Hitler ao poder para confrontar tal questão.

Beethoven e a construção da identidade alemã

Inauguração do monumento a Beethoven em Bonn no ano de 1845
Inauguração do monumento a Beethoven em Bonn no ano de 1845

Ao longo do século XIX, Beethoven foi um importante personagem na formação da identidade nacional alemã. De Bismarck a Wagner, a questão se impôs como uma das maiores problemáticas do complexo jogo entre música e política.  O que vemos durante o processo de unificação da Alemanha é uma imagem de Beethoven comprometida com o “campo de batalha”. Isso se deve ao fato de que as grandes manifestações da arte alemã foram essenciais no processo de se formar uma imagem do povo alemão. Assim, Beethoven, ao lado de Schiller e de Goethe, acabam por ser compreendidos num viés onde suas obras são lidas dentro do ideal do espírito alemão.

Isto fica bem claro se analisarmos o caso de Richard Wagner e sua apropriação da obra beethoveniana. Em seu ensaio dedicado ao compositor, Wagner afirma que Beethoven revela através da música a consciência do mundo, da mesma maneira que a filosofia desvela esta mesma consciência, sendo esta a relação profunda do compositor com a nação alemã (Wagner, 2010, p. 42). Para além de considerações puramente estéticas, o ensaio é permeado com a necessidade de identificar os traços nacionais da obra de Beethoven. Assim, estética, filosofia e política se encontram neste ensaio, cuja intenção busca, além desta conexão imediata entre Beethoven a Alemanha, justificar a obra de Wagner não somente dentro do campo da música, mas também dentro da continuação histórica da construção da imagem identitária dos alemães. É significativo que tal ensaio tenha sido escrito quando estourou a guerra franco-prussiana que viria culminar na consolidação da unificação da Alemanha sob o comando de Bismarck. Neste sentido, este ensaio pode ser lido como uma espécie de monumento que homenageia tanto a imagem de Beethoven quanto a própria Alemanha.

Otto von Bismarck
Otto von Bismarck

De fato, o Beethoven da era de Bismarck está profundamente contaminado de ideais nacionalistas. Durante a guerra franco-prussiana, muitas obras do compositor produzidas com um sentido político, principalmente as escritas durante o período do já mencionado congresso de Viena, serão resgatadas do ostracismo em que se encontravam desde aquela ocasião (Buch, 2001, p. 198).  No entanto, não é somente a música de Estado composta por Beethoven que será lida dentro das intenções nacionalistas alemãs. Isto fica claro quando, em 1892, Hans Von Büllow dedica a execução da Sinfonia Eroica ao unificador da nação alemã. Segundo o regente, Beethoven com certeza teria admirado muito mais Bismarck do que Napoleão, caso vivesse para ver os feitos do chanceler.

Outro momento que revela a importância do músico para a formação da nação alemã é a inauguração de um monumento dedicado a Beethoven em Bonn no ano de 1845. Nesta ocasião, pode-se observar a construção de uma imagem de Beethoven onde a universalidade de sua obra é colocada – e de certa forma contrastada – ao lado da idealização de um Beethoven puramente alemão. Isto fica claro quando observamos as palavras do “Coro dos homens para a inauguração da estátua de Beethoven”, composta por H. K. Breidenstein, musicólogo alemão e idealizador do monumento. Após louvar a figura de Beethoven numa espécie de oração dirigida ao próprio compositor, Breidenstein encerra a obra afirmando que “mesmo que cada país te reivindique para si \ Tu, o poderoso \ Tua pátria é o Reno Alemão” (Buch, 185, 2001, p. 185).

O Beethoven da república francesa

Na França, a imagem de Beethoven assumirá contornos muito mais revolucionários, no sentido da criação de uma identidade republicana francesa do compositor. Deixando de lado as profundas ligações com a aristocracia e as verdadeiras contradições que o discurso político de Beethoven se desenhou ao longo de sua vida, a imagem do compositor dentro da Terceira República na França será a de um músico profundamente ligado aos ideais da revolução francesa. Curiosamente, até hoje muito dessa imagem distorcida permaneceu, já que até agora insistimos numa leitura republicana dos ideais políticos de Beethoven, ignorando muito da sua contribuição para a aristocracia e para a conservação do antigo jogo político, como sua participação já mencionada no Congresso de Viena.

Os franceses forjam esta imagem de Beethoven ao eleger o aspecto universal de sua obra, evidenciando um aspecto de sua produção onde Beethoven não é apenas um dos pilares da nação alemã, mas sim um compositor falando para a humanidade e para a emancipação do espírito humano. Neste sentido, a nona sinfonia será a obra chave na construção desta leitura de Beethoven. Assim, colocando paradoxalmente mais em evidência o poema de Schiller do que a própria música de Beethoven, será através da mensagem explicita no texto desta obra que Beethoven será em grande parte compreendido dentro da França.

Deve-se observar, no entanto, que essa mensagem é também lida de maneira a recriar as próprias intenções de Schiller ao escrever o poema. O eixo de leitura desta obra possui uma mudança significativa: para a França, a ode não é uma ode à alegria e sim uma ode à liberdade. Grande parte desta leitura se encontra na tradução de uma biografia alemã escrita por Ludwig Nohl e traduzida para o francês por Victor Wilder. Em uma determinada passagem, afirma o biografo que “Schiller escrevera primeiramente Freiheit (liberdade) schöner götterfunken, mas que mais, tarde ele, dera a seu poema o sentido mais profundo e mais transcendente de uma libetação interior e de uma procura pela totalidade” (Buch, 2001, p. 209). Inspirada numa distorção que se provara sem qualquer base histórica, o Beethoven da nona sinfonia conclamará todos os homens a se emancipar em nome de um ideal de liberdade que costura os discursos da terceira república francesa. Desta maneira, a nona sinfonia passa a ser uma espécie de segunda marselhesa.

Referências

BUCH, E. Música e política: a nona de Beethoven. Bauru: Edusc, 2001

WAGNER, R. Beethoven. Rio de Janeiro: Zahar, 2010

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