Música nacional e cosmopolita na França e na Inglaterra do século XVIII

Armide Lully
Apresentação da Ópera Armide de Lully. Gabriel de Saint-Aubin (1724-1780)

Quando pensamos em música e seu papel na formação da identidade de uma nação, logo lembramos da música de Liszt, Chopin, Balakirev, Mussorgsky, Bartók e Villa-Lobos, entre tantos outros compositores românticos e da primeira geração modernista. De fato, a importância do nacionalismo na música do século XIX e início do século XX é inegável. Levada no esteio de profundas discussões ideológicas em cuja base se encontrava diretamente ligados os conceitos de nação e povo, a música cumpriu um relevante papel no aprofundamento do assunto. Porém, pouca atenção é dada ao fato de que já no século XVIII, discussões acerca do embate entre a música nacional e a cosmopolita já davam o tom em importantes centros musicais da Europa.

Apresentação de ópera no Convent garden no séc XVIII
Apresentação de ópera no Convent garden no séc XVIII

Antes de continuarmos, no entanto, é preciso fazer uma breve observação sobre o conceito de nação no século XVIII. Como bem aponta Raymond Williams, o conceito de nação e seus derivados, tais como nacional, nacionalismo e nacionalidade, sofreram profundas transformações até adquirirem seu sentido moderno no século XIX. Como o conceito de nação se forjou em justaposição ao conceito de raça e grupo racial desde a Inglaterra do século XIII, passando então por uma série de ressignificações, é difícil datar o surgimento do sentido moderno do termo relacionado às questões de formação política (Willams, 2007, p.285). O que é certo, no entanto, é que antes do século XIX não podemos falar de nação em seu sentido plenamente moderno. O termo nacionalismo, por exemplo, nasce somente no século XIX, sendo filho da dupla revolução francesa e industrial (Hobsbawm,  2001, p. 164), deixando claro que quando falamos de nação e identidade nacional no século XVIII, estamos nos referindo às questões relacionadas à conceituação de Estado-Nação e às problemáticas que tal conceito envolve e não ao puro sentimento nacionalista do século XIX .

Feita a ressalva, podemos notar que as questões envolvendo o conceito de Estado-Nação e as discussões acerca da identidade nacional da música tiveram um papel importante tanto na França como na Inglaterra. O que é interessante notar, no entanto, é que, para além dos assuntos puramente estéticos, as querelas envolvendo música e nação abarcaram questões de cunho prático como a programação de concertos públicos e óperas. O espaço dedicado à música nacional dentro de um programa de concerto ou de uma temporada de óperas suscitou debates e foi uma tema discutido tanto de forma aberta quanto subliminarmente, provando mais uma vez a interferência de assuntos externos no seio da própria vida musical.

Jean Baptiste Lully música nacional
Jean Baptiste Lully, personagem central na questão da música nacional e cosmopolita na França do século XVIII

Uma das questões levantadas tomava em conta a questão da identidade nacional. A questão é de suma importância já que no século XVIII, de modo que observamos uma espécie de cultura musical cosmopolita se estabelecendo de maneira hegemônica na Europa. Como aponta o historiador William Weber, nenhuma região ou país existia musicalmente por si só. A colaboração e as trocas musicais entre as mais diversas localidades da Europa eram vitais para a sobrevivência da vida musical (Weber, 2011, p. 69). Neste sentido, a ópera tem um papel fundamental. Fragmentos de ópera italiana dominaram a programação musical durante muito tempo. Por volta de 1710, a ópera italiana era parte central da vida musical de cortes e cidades (Weber, 2011, p. 69). Mais para o final do século XVIII, a cultura musical cosmopolita já havia ultrapassado os limites da música vocal e invadiu o terreno dos concertos e sinfonias, com a primazia da música de compositores de língua alemã. Desta maneira, o espaço reservado para compositores locais dentro das atividades musicais passou a ser uma questão relevante, preparando terreno para as questões entre música e nação no século XIX.

Assim, a interferência do Estado dentro da vida musical provou ser um ponto fundamental. A intensidade com que o Estado controlava a programação musical ajudou muito a moldar o papel da música local dentro de uma nação. Neste sentido, França e Inglaterra servem como exemplos máximos de tal fenômeno.

Na França do século XVIII, a monarquia dos Bourbons estabeleceu um profundo controle estatal dentro da vida musical. Em 1669, o rei Luis XIV outorga ao Académie Royale de Musique o privilégio da organizar as temporadas musicais em Paris. Reforçar a música nacional era uma tendência consolidada dentro do absolutismo francês. Devido a tal política, a temporada de óperas na França durava mais do que em qualquer outra região da Europa e sua programação era dominada pela música francesa. Como consequência, obras de Lully e Rameau dominaram o cenário musical nas décadas de 1750 e 1760. Na imprensa local, o discurso em prol da música francesa dava o tom. O autor de um manifesto chamado “Diálogo entre Lully, Rameau e Orfeu nos Champs Elisées” nos mostra a dimensão da questão ao afirmar que “o mais ridículo para nossa nação é pensar que nossa música deva ceder ao domínio alemão e italiano” (Weber, 2011, p. 71).

Jean Jacques Rousseau foi um personagem importante na Querelle Des Bouffons
Jean Jacques Rousseau foi um personagem importante na Querelle Des Bouffons

Um dos maiores efeitos desta política de Estado será sentida na questão da Querelle des Bouffons. Segundo W. Weber, a discussão se inflamou com a chegada de uma troupe italiana de ópera bufa em Paris no ano de 1752 (Weber, 2011, p. 102). A batalha que se seguiu entre os apoiadores da ópera francesa e os defensores da ópera italiana teve como fundo justamente esta política que basicamente excluía a música italiana da vida operística francesa. Os defensores da ópera italiana se posicionavam em prol da abertura da vida musical francesa para a Itália, em uma discussão que envolvia não somente questões estéticas, mas tinha profundas ligações com a vida prática musical ao exigir espaço para a ópera italiana dentro da programação musical francesa. Apoiado por iluministas do porte de Jean Jacques Rousseau, a querela era vista também como uma oportunidade de se atacar o absolutismo francês e seu poder centralizador que interferia até na vida musical. Desta maneira, a Querelle pode ser entendida como um ponto de encontro entre a política, a filosofia e a vida musical.

Foi somente  por volta da década de 1770 que se produziu uma reciclagem completa na programação musical francesa (Weber, 2011, p. 71). A música italiana adentrou não só nas casas de ópera na França, como também dentro dos concert spirituel, que organizava concertos cuja programação era dedicada tanto ao repertório de música sacra como à música instrumental.

Já na Inglaterra, vemos um posicionamento completamente oposto da aristocracia com relação à música nacional. Identificada com a ópera italiana, a aristocracia inglesa reservou pouco espaço para a música local. Símbolo máximo desta posição é a ausência quase total de compositores ingleses no King’s Theatre. Isso se explica através da crise política que se instalou na Inglaterra do início do século XVIII e estava diretamente ligada ao assunto, pois a recondução da nobreza ao poder levou ao monopólio da ópera italiana no teatro real (Weber, 2011, p. 82). Assim sendo, a identificação com a música italiana assumiu um caráter explicitamente classista.

Ao mesmo tempo, uma burguesia endinheirada ascendia na Inglaterra, levando a discussão da música nacional a outro plano.  A proliferação sem paralelo de concertos em Londres possibilitou que compositores ingleses encontrassem espaço para a sua música em eventos fora do âmbito real. Isto explica o sucesso de gêneros vocais puramente ingleses como o glee e o catch que se tornaram extremamente difundidos entre os anos de 1760 e 1830 (Weber, 2011, p. 84). Durante o período, muitos clubes de cavalheiros cultivaram o gênero que, no entanto, possuía uma proximidade estilística com a canzonetta italiana.

Como pudemos observar, as relações entre música e nação estavam longe de serem irrelevantes na vida musical do século XVIII. Fruto de complexos jogos onde política, estética e filosofia se convergiam, o problema da música nacional frente à cosmopolita ajudou a moldar grande parte da vida musical do período. Sua importância não pode ser negada já que em muitos sentidos, as discussões suscitadas nestas verdadeiras batalhas pela hegemonia do repertório ajudaram a fomentar os espíritos nacionalistas que viriam a se disseminar no século XIX.

Referências

HOBSBAWM, E. A era das revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 2001

WEBER, W. La gran transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

WILLIAMS, R. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo: Boi tempo, 2007

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