III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social Unicamp/OSU – Um relato

Com a palavra, Nelson Kunze, diretor da Revista Concerto III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social. Imagem retirada da página oficial da Orquestra Sinfônica da Unicamp

O Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social, realização da Orquestra Sinfônica da UNICAMP (OSU) em conjunto com Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural (CIDDIC), se tornou referência não só devido à regularidade que conseguiu, sendo realizado anualmente desde 2015, mas também pela promoção de importantes debates sobre os mais diversos modelos institucionais, com a presença de importantes representantes do meio sinfônico brasileiro. Notavelmente organizado e idealizado pela regente da Orquestra Sinfônica da Unicamp, Cinthia Alireti – que também assume a curadoria do Fórum – em sua primeira edição o evento priorizou uma abordagem institucional, ao comparar alguns modelos de gestão orquestral, fomentando a discussão sobre seus impasses e possibilidades; já em sua segunda edição o enfoque foi, por um lado, o potencial socioeducativo de alguns programas de educação musical resididos em determinadas instituições sinfônicas e, por outro, discutir a questão da integração da música contemporânea no repertório da sala de concerto.

Arte do III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social Unicamp/Osu

Na sua terceira edição, o evento foi realizado em um momento delicado do “nosso” cenário sinfônico brasileiro, no qual, como atesta o texto orientativo proposto pelos organizadores, presenciamos os “atuais fechamentos de importantes instituições sinfônicas, além de vergonhosas pendências de outras em nosso país”. Não por acaso, esta edição do evento enfoca as relações entre a música de concerto e o seu público – e as aspas em torno do nosso foram colocadas com o objetivo de enfatizar essa relação de harmonia e tensão entre estes polos.

Para efetivar o que se propõe, a organização do evento escolheu três eixos de discussão que foram percorridos ao longo de um único dia, com o fim de tangenciar a questão central (público) sob as mais variadas perspectivas entre (e intra) os temas abordados. Estes foram: a) Curadoria musical, b) Divulgação da música de concerto, c) Os novos públicos da música de concerto. Com a experiência das outras realizações, a organização sentiu a necessidade de elaborar um texto introdutório com algumas questões que gostaria de ver respondida sobre o tema específico, tanto para direcionar os apresentadores como para aproximar suas exposições. Este texto ora foi levado em conta, ora esquecido.

Com a palavra o regente Abel Rocha III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social.
Imagem retirada da página oficial da Orquestra Sinfônica da Unicamp

Destarte, a primeira mesa, sobre curadoria musical, se debruçou sobre uma tendência muito atual, pois o termo curadoria se generalizou em uma medida que extrapola o campo artístico no qual foi criado, hoje temos desde o curador de conteúdos (newsletters, podcasts, feeds) até o curador de playlists (no Spotify, por exemplo). Apesar desta expansão do termo, que antes se referia exclusivamente ao campo das artes visuais, a música de concerto ainda está tateando este campo. Neste sentido, uma mesa exclusivamente para se pensar a atividade supre uma lacuna de maneira interessante, na medida em que traz como convidados João Marcos Coelho, crítico musical e curador da série de música contemporânea da CPFL Cultura (Campinas); Mônica Giardini, regente da Banda Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo e curadora dos concertos do Memorial da América Latina; Júlio Medaglia, curador do programa “Grandes Maestros, Grandes Rádios” da Rádio Cultura.

Com cada curador em um ramo específico, essa mesa conseguiu colher experiências contrastantes. Mônica Giardini dissertou sobre a necessidade da divulgação de uma música introvertida em tempos de extroversão: para a regente era necessário tornar o espaço da sala de concerto essencialmente reflexivo, algo convidativo e com interesse para o público disperso. Segundo a maestrina, alguns recursos são fundamentais para essa formação de público, como uma periodicidade para a música de concerto e uma “casa própria” da orquestra. Em seguida, João Marcos Coelho prosseguiu relatando sua experiência de mais de 15 anos como curador da série na CPFL Cultura e como, através da autonomia conquistada através dos recursos do Instituto, desenvolveu um espaço que possui os principais fatores citados por Mônica – casa e periodicidade -, no qual procura tornar a música contemporânea acessível ao grande público através de aulas interativas (distanciadas do método expositivo acadêmico) e conexões entre os repertórios. É interessante notar a preferência do crítico por convidar curadores, especialmente jornalistas, que estejam distantes de uma escola de composição específica, segundo ele para evitar as igrejinhas. Por fim, Júlio Medaglia diagnosticou um cenário apocalíptico no qual as pessoas estão absortas em livros para colorir e conservam um absoluto desinteresse pela “música sofisticada devido ao mercado musical, à ignorância e a má formação educacional, tudo isso somado ao desamparo de nossos governantes que estão chafurdados em corrupção, deixando nossas instituições musicais à míngua. Segundo Medaglia, para resolver esse cenário, seria preciso insistir na formação musical de jovens educandos, seja através de programas socioeducativos ou da inserção da matéria na educação formal – questão na qual o compositor diz militar aguerridamente.

O crítico musical João Marcos Coelho e o maestro Julio Medaglia no III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social
Imagem retirada da página oficial da Orquestra Sinfônica da Unicamp

No final de sua exposição, Júlio Medaglia atestou ser legítimo, tendo em vista a escassez de recursos editoriais, que jovens músicos se encaminhem até o IMLSP e baixem as partituras para sua execução. Como que antecipando a fala seguinte, Medaglia não sabia o que estava por vir. Entre a mesa da manhã e a primeira mesa da tarde, pudemos ouvir a palestrante Maria Elisa Peretti Pasqualini (ou “Mili” como gostava de referir a si mesma), atual coordenadora do arquivo artístico do Theatro Municipal. Em sua missão de instaurar uma racionalidade na gestão dos arquivos artísticos e zelar pelo cumprimento dos direitos autorais no Brasil, a expositora encontrou substrato perfeito para começar sua análise nas considerações finais do maestro radialista. Sendo assim, mostrou como os direitos autorais regidos no IMLSP, uma instituição canadense, não são os mesmos do Brasil, portanto, podemos baixar para estudo mas não para execuções orquestrais. Por conseguinte, a profissional arrolou diversos cases de seu cotidiano, tanto na OSESP, quanto no Theatro Municipal de São Paulo, nos quais determinados agentes ignoram essa lei e como seria a prática correta, mesmo reconhecendo todas as limitações orçamentárias que encontram as atuais instituições.

Com a palavra, Rebello Alvarenga III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social.
Imagem retirada da página oficial da Orquestra Sinfônica da Unicamp

Após o almoço, retornamos para a mesa sobre a divulgação da música de concerto, a qual contou com Rebello Alvarenga, idealizador do Música e Sociedade, como um dos palestrantes convidados. Não nos deteremos na sua exposição devido ao fato de que ela já consta publicada em vídeo em nossa página oficial (o mesmo encontra-se disponível ao final deste artigo). Os outros convidados que dividiram a mesa com Rebello foram Nelson Kunze, diretor da Revista Concerto, e Mariana Garcia, analista de comunicação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. O ponto central da exposição de Kunze está no raciocínio de que para haver divulgação, é preciso que haja atividades da música de concerto. Desconcertado com o atual cenário de cortes, os quais condena tanto no Brasil de forma geral mas principalmente no Estado em que reside, o diretor do principal periódico impresso do ramo posicionou-se contra as flexibilizações das relações trabalhistas e defendeu as atuais políticas econômicas promovidas pelas Organizações Sociais (OS), que para ele se apresentam como o modelo de gestão ideal (os posicionamentos de Kunze sobre as questões das OS também podem ser conferidos aqui neste artigo). Advinda de uma OS bem-sucedida no atual cenário, Mariana Garcia nos apresentou um quadro de gestão muito bem detalhado, com uma narrativa dos percalços transcorridos para se chegar aos critérios de excelência atingidos pela Filarmônica, assim como das atividades que fundamentam a construção da temporada, da identidade visual à construção de séries paralelas. Os vídeos contendo as falas de Nelson Kunze e Mariana Garcia deverão ser publicados em breve em nossa página oficial.

Com a palavra a regente Vânia Pajares no III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social. Ao seu lado esquerdo, encontra-se a regente Cinthia Alireti, idealizadora, coordenadora e curadora do Fórum.
Imagem retirada da página oficial da Orquestra Sinfônica da Unicamp.

Na segunda mesa da tarde, o evento nos convidou a se debruçar sobre os novos públicos da música de concerto. Para tanto, dividiram a mesa com Mariana Garcia da Filarmônica de Minas Gerais dois outros formadores de público, para comentarem suas respectivas experiências: a regente de teatro Vânia Pajares e o regente da Orquestra Sinfônica de Santo André, Abel Rocha. O argumento de Pajares recai sobre a qualidade artística como um dos principais fatores para atrair o público, seja no concerto ou no teatro musical. Por ocupar essa zona limítrofe entre o que se entende por erudito e popular, a maestrina lançou mão de uma citação interessante de Leonard Bernstein, na qual o compositor afirma que a sua West side story, que transita entre a ópera e o musical, ao ser apresentada no Metropolitan é erudita, mas se apresentada na Broadway é popular. Já Abel Rocha centralizou sua exposição na sua experiência de gestão na OSSA e como, em um cenário de flexibilização trabalhista e escassez de recursos, consegue re-alocar o horário de seus contratados para otimizar os trabalhos de divulgação e formação de público, angariando o grande público para os seus concertos. O regente procurou expor o trabalho na construção da identidade com o público, suas demandas institucionais – como uma articulação com a Secretaria da Cultura para que a orquestra dê aulas de música na escola-, e, para além disso, expôs os trabalhos socioeducativos promovidos pela orquestra, ao levar os concertos para a rua ou elaborando concertos sensoriais para deficientes auditivos.

Assim, permeado por discussões sobre os modelos de gestão para a formação de público na música de concerto, o III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social transcorreu com constantes divergências, declaradas e não-declaradas, em relação à qual seria a melhor maneira de lidar com o atual cenário de crise econômica nas artes do espetáculo, em geral, e no cenário sinfônico, em específico. O sentimento levado para casa é de que alguma coisa deve ser feita, e rápido, mas a partir daí só restam dúvidas quanto aos caminhos a serem seguidos.

Fala de Rebello Alvarenga no III Fórum de Gestão Orquestral e Compromisso Social

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