III Colóquio Internacional História e Música: Tempos de Música e os seus Fazeres

Mesa do III Colóquio Internacional Música e História

Entre historiadores e musicólogos, a música como objeto científico é o centro de um debate contínuo acerca das possibilidades relevantes de análise do material sonoro. Essa discussão segue acumulando polêmicas em torno de algumas variáveis: está descartado o historiador que não conhece os dados musicais das obras que tem por seu objeto? É possível o musicólogo construir um discurso histórico alinhado à sociedade da época sem um método que o auxilie? Essas são algumas perguntas que dão o tom de tais querelas. Se as discussões suscitadas por tais questões são numerosas, por outro lado são infindáveis os materiais que servem de base para as argumentações: de partituras à produção escrita (periódicos, artigos, entrevistas, etc), de LPs em coletânea a cartas e relatos, de performances até trajetórias.

O logo do III Simpósio Internacional História e Música
O logo do III Colóquio Internacional História e Música

É com o objetivo de dar palco a esses embates que os organizadores Tânia da Costa Garcia e José Adriano Fenerick começaram a elaborar na UNESP-Franca os Colóquios Internacionais de História e Música, que teve duas versões em 2011 e 2013 organizadas pelo Grupo de Pesquisa História e Música (CNPq). Ambos os colóquios tiveram seus resultados compilados em livros publicados pela Editora Alameda: Música e Política: um olhar transdisciplinar (2013) e Música Popular: história, memória e identidades (2015).

Em um cenário com um amplo corte de verbas da pesquisa científica dentro dos departamentos de pós-graduação, organizar um encontro internacional entre duas áreas que partilham uma zona de convergência repleta de dissensos assume ares de um feito heroico aos olhos da comunidade acadêmica. No entanto, para dar seguimento aos colóquios organizados pelo grupo, o evento deste ano foi pela primeira vez realizado com o financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que forneceu as condições necessárias para a realização do III Colóquio Internacional História e Música: Tempos de música e seus fazeres. Antes de prosseguirmos é necessário, no entanto, esclarecer uma questão: como um dos organizadores do evento e colaborador do Música e Sociedade, objetivarei minimizar a primeira posição em prol de uma descrição de ouvinte de todo o evento.

Uma das mesas do III Simpósio Internacional História e Música
Uma das mesas do III Colóquio Internacional História e Música

De saída, a descrição presente no caderno de resumos salta à vista: “No mundo contemporâneo convivem temporalidades múltiplas tanto para a produção quanto para o consumo da música”. Partindo do pressuposto de que diversas linguagens convivem sincronicamente em temporalidades sobrepostas, torna-se necessária e urgente a abordagem multidisciplinar desses objetos cada vez mais pluriformes – chamado principal deste evento. O evento tem por eixo quatro mesas redondas dispostas ao longo dos três dias de debates, com três participantes cada.

Na primeira mesa, “Música folclórica: entre o campo e a cidade”, estavam presentes os dois convidados internacionais: Pablo Vila (Temple University) e Ricardo Kaliman (CONICET/Univ. Nacional de Tucúman). Ambos verticalizaram suas atenções para o folclore argentino e suas relações com a cidade em modernização ao longo do século XX. Pablo procurou descrever o processo histórico de permanência da tradição folclórica na cidade modernizada tomando como principal agente Carlos Gardel; já Ricardo procurou explorar as mutações da identidade criollista na indústria cultural mundializada, centrando-se na figura de Chaqueño Palavencino (celebridade pop argentina). Por fim e para destoar do coro argentino, a mesa findou com o trabalho da organizadora do evento, Tânia Garcia da Costa, versando sobre a patrimonialização da música popular durante a gestão de Herminio Bello de Carvalho à frente da FUNARTE, gestão que cria uma versão carioca hegemônica das narrativas sobre a história da produção. Mesmo destoando em localidade, as exposições estão conectadas no que tange a utilização do folclore como instrumento de legitimidade para patrimonialização/canonização dos repertórios.

Retomando o fio da meada da mesa anterior, a atividade seguinte, “Performance e Música Popular”, trata, na ótica dos pesquisadores-músicos, das performances em música popular, procurando dar razão para diferentes grupos, obras e trajetórias que passam pela linha canônica da MPB. O pesquisador Rafael dos Santos (UNICAMP) iniciou a mesa com discussões sobre os piano trios brasileiros da década de 60, procurando rastrear a formação musical jazzística que eles incorporaram a fim de fazer saltar os elementos musicais novos que emergiram destes projetos. Ivan Vilela (USP) mostrou como o cânone musical carioca foi hegemônico desde o período joanino até a formação de uma linha evolutiva da música popular brasileira, excluindo uma veia banto-mineira representada pelo Clube da Esquina, por exemplo. Para finalizar, Alexandre Fransceschini (UNESP-IA) nos apresentou um estudo de caso acerca do catálogo de gravações do violonista Laurindo de Almeida, um dos fundadores menos lembrados da Bossa Nova, discorrendo sobre uma pesquisa documental sobre a vida do compositor.

Cartaz do III Simpósio Internacional História e Música
Cartaz do III Colóquio Internacional História e Música

A mesa “Música popular e suas narrativas” foi a de caráter mais fragmentário, provavelmente devido a amplitude da formulação que carrega o título. O pesquisador Adélcio Camilo Machado (UFSCar) iniciou com uma discussão histórica sobre duas facções que surgiram entre os anos 50-60 no Brasil e que acabaram legislando a favor de maneiras opostas de se conceber um jazz autêntico através da análise de periódicos do período. Silvano Baia (UFU), por sua vez, terminou com um catálogo dos estudos anglo-americanos que versam sobre música popular brasileira. Entre estes dois extremos, Adalberto Paranhos (UFU) nos trouxe um panorama das composições elaboradas pelo que procurou chamar de “mulheres liberadas” – tendo o maior exemplo na compositora Tuca -, enfocando a relação homossexual nas canções e sua relação contraditória com a censura nos anos 70.

Por fim, na última mesa, “Música gravada e experiências sonoras”, a pesquisadora Fabiana Lopes da Cunha (UNESP-Ourinhos) estabeleceu uma análise histórica das festas de carnaval ao descrever a peculiaridade de seus ritos, assim como contextualizou a gravação dos primeiros sambas como o Pelo Telefone, situando sua leitura em meio a polêmicas produzidas pela bibliografia. Em seguida, José Adriano Fenerick (UNESP-Franca) dissertou sobre o viés pop presente nas canções de Arrigo Barnabé, notório vanguardista da música popular brasileira, enquadrando principalmente algumas faixas do LP Tubarões Voadores com a intenção de perceber sua apropriação específica das produções comerciais como o rock, por exemplo. A última fala foi da pesquisadora Marcia Tosta Dias (UNIFESP), que nos apresentou uma análise sociológica das produções relativas ao grupo da “Vanguarda Paulista” dentro do selo independente Baratos Afins, nos trazendo conteúdo de entrevistas e pesquisas quantitativas sobre a questão.

Entre as apresentações das mesas, foram apresentadas diversas comunicações sobre os mais variados temas nos Simpósios Temáticos, que tiveram como eixo os temas eleitos para as mesas. Os resumos dos trabalhos apresentados constam publicados no caderno que teve circulação interna durante o evento e que disponibilizamos agora para o Música e Sociedade.

De um ponto de vista particular, elegi como ápice do evento a fala final de Adélcio, na qual o pesquisador nos convoca a mobilizarmos os arcabouços teóricos no qual depositamos nossos objetos musicais – a saber, Roger Chartier estava sendo enfocado – para entender a realidade institucional que se apresenta nessa transição política em que vivemos no Brasil. Dessa maneira, podemos questionar os universais que se apresentam de maneira neutra, mostrando a que interesses eles atendem e quais grupos se beneficiam destes interesses. É em momentos como esse que um colóquio sobre pesquisas em música extrapola seus interesses científicos imediatos e direciona seus olhares para sociedade que o enreda.

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