Darius Milhaud no Brasil: o modernismo antes da Semana de Arte Moderna

Um estranho no ninho

Tornou-se usual ao longo da história condenar ou louvar o olhar do estrangeiro. Não raro, jornalistas estrangeiros trazem uma perspectiva sobre o cenário nacional que nos surpreende e revira os consensos estabelecidos entre os nossos principais periódicos. O olhar do estrangeiro recria.

Darius Milhaud ao piano

No início do século XX, havia uma relativa hegemonia da cultura francesa em metrópoles como o Rio de Janeiro. O embaixador da França no Brasil, em 1917, era Paul Claudel; ele foi um desses estrangeiros que muito nos revelou sobre nosso próprio país através de suas “missões”. Não é com ele, no entanto, que trataremos o assunto, mas com seu adido cultural, o compositor Darius Milhaud. Segundo o pesquisador Manoel Aranha Côrrea do Lago, este teria nos mostrado um modernismo musical corrente no Brasil antes do nosso principal marco histórico, a Semana de Arte Moderna.

O Circulo Veloso-Guerra e Darius Milhaus no Brasil, de Manoel Aranha Côrrea do Lago

Por exemplo, não foi preciso esperar a Semana de Arte Moderna para público e intérpretes do Rio de Janeiro terem conhecimento das obras de Debussy e Satie. Muito menos Ravel, escanteado durante a “Semana”. O “S” maiúsculo é utilizado para representar a grandeza do evento e o grau de ofuscamento que estabeleceu em relação aos outros acontecimentos. Mas onde? Quando? Os anos 10 não representam, na literatura, nas artes plásticas e na música o que a gente entende como “Pré-Modernismo”? “- Ou seja, você está me dizendo que há modernismo antes da Semana de Arte Moderna?” É! E não apenas eu.

Meio musical carioca: Eruditos e Populares

Antes de nos determos nas questões da música moderna, é preciso pensar o contexto. O cenário musical carioca em 1910 era bastante dividido. Uma das razões: herdou a distinção entre erudito e popular, nascida no encontro entre o positivismo e “wagnerianismo”, cara ao período inicial da República.

Para ficar claro qual era esse tipo de distinção, podemos pensar num exemplo prático: Henrique Oswald nutria amores pela música de Ernesto Nazareth e em 1913 foi ao Cinema Odeon tocar com o “pianeiro”– evento que foi narrado pelo cronista Gastão Penalva (documentação encontrada no site do IMS). No entanto, não existia um horizonte musical no qual uma pessoa com a trajetória de Henrique Oswald pudesse tornar-se também um compositor de “tangos característicos”, ou maxixe. Não era mais a época de Henrique Alves de Mesquita, na qual o compositor compunha músicas sacras e polcas simultaneamente. Questões morais haviam entrado na distinção. O compositor “sério” que passasse a compor polcas seria tomado como “vulgar” por seu público.

Paul Claudel e Darius Milhaud durante as missões folclóricas

Darius Milhaud, um jovem de 27 anos, ao chegar no Brasil em 1917, estava despido de todo este moralismo. Havia interesse por Oswald, Alberto Nepomuceno e Ernesto Nazareth. Segundo Lago, Milhaud ainda desenvolveu um excelente relacionamento com as alas jovens e tradicionais dos compositores “sérios”, como Francisco Braga e Luciano Gallet (2010, p. 69).

A aposta de Milhaud, entretanto, é na juventude, apesar de salvar alguns da velha-guarda. Frequentava a casa de Oswald, mas escarnecia de Braga. Em carta a Koechlin, datada de 13 de novembro de 1917, comenta: “Conheci um músico chamado Braga que esteve na classe de Massenet na sua época. Ainda bem que o Brasil evoluiu depois dele” (apud LAGO, 2010, p. 69).

Nada de novo no cenário até aí, além do bom trânsito. Todos estes citados já eram figuras conhecidas internacionalmente, relevantes no meio. A surpresa veio durante uma visita de Milhaud à casa de Henrique Oswald; nesta ocasião, ele foi apresentado a um casal ilustre: a pianista Maria Virginia (Nininha) Veloso Guerra e o musicólogo Oswaldo Guerra, ambos compositores.

Godofredo Leão Veloso, pai de Nininha, era professor de piano e um grande interessado na execução da música contemporânea. Para se ter uma noção, o cão de Veloso chamava-se “Satie” (LAGO, 2010, p. 70). Milhaud se deslumbra e passa a ligar-se intimamente aos Veloso-Guerra desde então.

O círculo Veloso Guerra”

Sr. Veloso era um militante – inculcava em todos o gosto pela música moderna. E não seria diferente com Milhaud.

O jovem francês não tinha muito conhecimento da obra do seu conterrâneo Erik Satie e foi introduzido pelo professor em toda a sua extensão. Estranho, não? Estamos acostumados a tratar do olhar estrangeiro no fluxo centro-periferia, e habituados a entender que o centro informa a periferia dos seu avanços; ao pensar um exemplo em que a periferia pode atualizar o centro sobre seus próprios procedimentos, há aí uma inversão que provoca estranhamento. Tal inversão é mais natural do que imaginamos, pois à nós, periferia, é imposto o saber da metrópole como condição. Cabe recordar que a França, para ser mais preciso Paris, era a capital cultural do século XIX e havia estabelecido fortes vínculos com o Rio de Janeiro.

Na sua estada no Brasil, Milhaud, junto aos Veloso-Guerra, pôde participar de uma grande quantidade de concertos nos quais foram realizadas as primeiras audições brasileiras de Debussy, Ravel, Koechlin, Deodat de Severac no período de 1917 a 1918 (LAGO, 2010, p. 73). Segundo relatos de Paul Claudel e Arthur Rubinstein, em 1918 Milhaud e Nininha tocaram a Sagração da Primavera a quatro mãos na casa dos Guerra.

Tudo isso era possível no Brasil devido ao mercado editorial nacional que, a partir de 1915, começava a “incorporar com maior desembaraço obras modernas a seus catálogos” tanto de compositores franceses, como de compositores nacionais como Glauco Velásquez, Villa-Lobos e João Nunes. Até 1920, o mercado editorial estaria povoado com as Estampes e Prelúdios de Debussy para as pianeiras reproduzirem em suas casas – função que posteriormente, nos anos 30, ficaria a cargo do rádio.

Gravação de Saudades do Brasil de Darius Milhaud

Milhaud trocava cartas intensamente com os Guerra, descrevendo suas ideias de composições ao casal. Além disso, relatava a recepção de suas obras, seus contatos com artistas das mais diversas ordens, etc, de modo que a correspondência entre as duas partes é uma das fontes primárias mais ricas. O compositor francês era fascinado pelas composições de Oswaldo e Nininha, principalmente pela inventividade notável para a época, o que não os deixava para trás em relação aos contemporâneos franceses. Entretanto, seria preciso dedicar um artigo exclusivo para discorrer com minúcias sobre os processos criativos e interpretativos do casal.

É fato conhecido que Milhaud se aproveitou do temário popular brasileiro para compor peças como Saudades do Brasil e O boi no telhado, mas é pouco conhecida a sua relação com a invenção moderna brasileira, bastante atualizada em relação aos seus contemporâneos franceses. Em suma, a ideia é clara: não somos apenas matéria-prima. Exportamos música moderna ainda antes da Semana.

Memória e esquecimento: a presença dos Veloso-Guerra na bibliografia brasileira

Segundo Lago, o renomado musicólogo Renato Almeida – salvo engano, um dos primeiros a receber essa alcunha no Brasil, ao lado de Mário de Andrade e Luiz Heitor Côrrea de Azevedo – em sua História da Música Brasileira (1926) é o primeiro a incluir Godofredo como um dos grandes professores de piano à época, junto com Alfredo Bevilacqua e Luigi Chiaffarelli, figuras que formaram toda uma geração. (LAGO, 2010, p. 88)

De 1922 à 1977, temos um vácuo que é quebrado apenas pelo trabalho de Alexandre Eulálio sobre a aventura de Blaise Cedrars no Brasil (1969), mas este é publicado apenas em francês. Dois eventos quebram este grande silêncio de 55 anos: O Coro dos Contrários, de José Miguel Wisnik, e a exposição Milhaud 60 anos, de Mercedes Reis Pequeno (LAGO, 2010, p. 89). Nos dois eventos, um bibliográfico e outro expositivo, os Guerra são vistos a partir das lentes de Milhaud, pois não havia consistência documental disponível para falar do casal per se. É ressaltado no estudo de Wisnik sobretudo a influência dessa “elite carioca” sobre Milhaud. A exposição, por outro lado, realizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, reuniu boa parte da documentação e abriu portas para outros estudos.

No entanto, o estudo de Manoel Corrêa, lançado em 2010, é o primeiro a se debruçar sobre o circulo Veloso-Guerra com uma documentação substancial que não depende somente das impressões de Milhaud para poder descrevê-lo. Fica o convite para a leitura deste círculo tão pulsante para seus contemporâneos e tão marginalizado da bibliografia musicológica até a nossa década.

Referências Bibliográficas

LAGO, Manoel Aranha Corrêa do. O círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil: modernismo musical no Rio de Janeiro antes da Semana. Rio de Janeiro: Ed. Reler, 2010.

WISNIK, José Miguel. O coro dos contrários: a música na Semana de Arte Moderna. São Paulo: Ed. Duas Cidades, 1977.

Comentários

comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here