De Bismarck a Hitler: da construção da identidade cultural alemã à conferência Música e Raça

Construção da identidade cultural alemã à conferência Música e Raça

A kultur alemã e o processo de unificação nacional

O processo de unificação alemã, ocorrido sob o punho de Otto Von Bismarck, foi um processo complexo que superou em muito questões puramente políticas e militares, deixando marcas que perdurarão e esclarecerão, em parte, a ascensão de Hitler ao poder. Da formação de uma burguesia identificada com o espírito militarista (Elias, 1997, p.20), decorrente dos inúmeros processos violentos ocorridos na formação do Estado alemão, até o espírito revanchista que permeou os meandros políticos da República de Weimar, o processo de formação do Estado alemão e da própria identidade nacional é erguido de uma maneira particularmente diversa de outros Estados europeus. Neste ínterim, a cultura e a música ocupam um lugar importante dentro da formação do Estado Alemão. Isto é o que se pretende, em parte, mostrar neste artigo, ressaltando alguns aspectos e momentos-chave do papel da música na formação da Alemanha entre o segundo e terceiro Reich.

Dentre os elementos mais importantes para o processo de unificação do Estado, encontrava-se a busca por uma identidade cultural alemã, ou seja, a procura, dentre os elementos de sua cultura, por aquilo que seria um denominador comum dos territórios unificados ao mesmo tempo que distinguia a Alemanha das demais nações europeias. Um dos grandes nomes do estudo da cultura, Terry Eagleton, afirma que durante o século XIX, especialmente nos territórios alemães, o conceito de cultura vai progressivamente se distanciando do conceito de civilização, passando a representar cada vez mais seu oposto. Enquanto o conceito de civilização buscava minimizar as diferenças nacionais, o conceito de cultura buscava realçar as diferenças, focando em suas características distintivas (Eagleton,2011,  p. 20).

Dentre todas as artes, a música teve papel de destaque como formadora desta identidade alemã no século XIX. Durante a unificação, a música pôde assumir uma posição de protagonista, pois, dentre outros fatores, possuía aquilo que poderia significar a superação das diferenças regionais dos diversos territórios alemães: a saber, uma linguagem comum. Neste sentido, o cânone musical alemão, representado principalmente por nomes como Bach, Haydn, Mozart e Beethoven, traduziu-se em um aliado indispensável no desenho do que seria a kultur alemã e o que ela representava de específico, de único, de especial.

Otto von Bismarck
Otto von Bismarck

Assim, muito além do Beethoven da nona sinfonia e o apelo para que “todos os homens se tornem irmãos”, o importante era buscar identificar, dentre os elementos de sua música, aquilo que caracterizava Beethoven como um compositor genuinamente alemão. Discussões acerca da identidade da música alemã tomava corpo entre os apreciadores da música, críticos musicais, músicos e estetas. A busca pelo elemento puramente alemão se torna um dos principais focos de discussão acerca da música no país. Como exemplo, basta lembrar Richard Wagner, que em seu famoso ensaio sobre Beethoven identifica como a essência do espírito nacional a capacidade de reformar e renovar as formas musicais já existentes, dotando-as de “profundidade e riqueza interior” (Wagner, 2010, p. 43).

No entanto, o processo da construção da identidade cultural alemã não se encerrou com a concretização da unificação e nem as questões acerca da especificidade da música alemã saíram de foco. Salvo todas as diferenças existentes ao longo de dois momentos do processo histórico alemão, a questão da identificação da especificidade de sua cultura e de sua superioridade entre as demais foi também um dos elementos chave da construção dos discursos nazistas durante o terceiro Reich. Neste sentido, a música também desempenhou um papel fundamental: instrumentalizada à revelia de suas intenções originais, o repertório musical alemão e seus compositores foram utilizados como ferramenta na busca de estruturas e legitimação da ideologia nazista. Parte desta instrumentalização pode ser exemplificada no congresso Música e Raça, ocorrida no ano de 1938, que levou a questão da música e a identidade alemã a um nível de distorção e perversidade ainda inimagináveis na era de Bismarck.

A conferência Música e Raça

A conferência Música e Raça ocorreu em Düsseldorf, paralelamente à exposição de música degenerada, operando em conjunto. Juntos, ambos eventos são exemplos perfeitos de como a perversão política do regime nacional socialista buscou instrumentalizar as artes no sentido de encontrar legitimidade para sua ideologia. Enquanto a exposição buscava denegrir os gêneros musicais e os músicos indesejados pelo Reich, a conferência buscava encontrar legitimidade acadêmica na produção de seus discursos racistas e xenófobos.

O compositor Richard Wagner
Richard Wagner

Encontrando eco nos tempos de Bismarck, uma das preocupações centrais da conferência foi buscar definir a importância da música alemã na história da música, bem como buscar determinar a essência do que seria, de fato, a germanidade em música. Desta maneira, alguns temas propostos na conferência eram, de certo modo, velhos conhecidos  dos alemães. Isto é o que atestam o nome de algumas mesas de debate que foram organizadas na ocasião, como “O alemão na Música” e “Os mestres alemães”. No entanto, muito dos temas discutidos ocultavam um interesse político diverso. Por exemplo, na primeira mesa, um artigo do musicólogo Hans Joachim Therstapen chamado “A música na região da Grande Alemanha” buscava encontrar evidências histórico-musicais para a anexação da Áustria aos territórios do Reich. A utilização da música como ferramenta política atingia novos patamares.

No entanto, outros temas abordados na conferência Música e Raça, apesar de também possuírem claros interesses políticos, diferiam por mostrar um interesse específico por uma certa análise pseudocientífica típica dos anos do regime nacional socialista. Um dos papéis debatidos no evento, de autoria do musicólogo Rudolf Gerber, propunha a discussão das análises raciais e psicológicas da personalidade e da obra de Brahms (Potter, 2015, p. 129). Em um outro artigo, de autoria de Fritz Bose, é ressaltada a importância da aplicação da biologia nos estudos musicais. Segundo Bose, a música, por ser uma linguagem do corpo e da alma, necessitava ser estudada em termos biorrácicos (Potter, 2015, p. 298). Por último, vale citar os escritos do musicólogo Hans Engel, que chegou a recomendar a investigação biossomática e biopsicológica de compositores alemães, sugerindo a análise de atributos físicos dos compositores na busca pela identificação dos estilos nacionais (Potter, 2015, p. 309).

Assim, a conferência Música e Raça foi um dos elementos responsáveis por uma verdadeira explosão de interesse no tema durante o regime nazista. A conferência estimulou o surgimento de uma coleção de artigos dedicados ao tema chamado “Raça e Música”, além de encorajar o surgimento de diversos outros artigos que buscavam, cada um a sua maneira, definir cientificamente, de acordo com a ideologia nazista, aspectos da música alemã.

Hitler, retratado como Lohengrin, em ilustração da época
Hitler, retratado como Lohengrin, em ilustração da época

Dentre os papéis nascidos da conferência, encontram-se os escritos de um outro musicólogo de nome Karl Blessinger, que buscou encontrar na figura do músico judeu e sua influência no meio musical alemão os elementos que justificariam o que ele chamava de degenerescência musical. Segundo os devaneios pseudocientíficos de Blessinger, os judeus seriam uma espécie de parasita cultural, trazendo aqui muito dos discursos típicos que se encontravam diariamente na Alemanha nazista. Para o musicólogo, esse parasitismo ocorria em três etapas: em primeiro lugar, “sob ação dos judeus”, ocorria a perda de conexão interna da cultura alemã, fragmentada em diversos componentes. Em segundo lugar, uma verdadeira mistura cultural tomava conta do cenário musical, transformando a cultura numa colcha de retalhos. Por último, surgiriam os elementos que promoveriam os “objetivos judaicos”, deturpando completamente a cultura musical alemã. Blessinger ainda nomeava cada um desses estágios, a saber: a era Mendelsohn, a era Meyerbeer e a era Mahler, respectivamente (Potter, 2015, p. 311). No entanto, seus devaneios iam além: Blessinger ainda ampliava o escopo de seus ataques camuflados de ciência. Assim o jazz, com seus “ritmos judaicos”, representaria um elemento de degeneração cultural, da mesma maneira que faziam os “regentes judeus” com sua imagem. De sua metralhadora de acusações, curiosamente nem Wagner, autor do infame “O judeu e a música”, escapou. Segundo o musicólogo, era possível encontrar no compositor elementos da música judaica.

No entanto, por mais ensandecidos que fossem os discursos da conferência Música e Raça e os escritos que viria a estimular, todos falharam em seus principais objetivos. Nenhum musicólogo conseguiu, sem produzir uma série de contradições em suas teses, definir cientificamente o que seria a essência alemã na música. Da mesma maneira, falharam aqueles que buscaram definir o que transformava, de fato, uma música em uma música judaica. Como lembra a musicóloga Pamela Potter, “encontrar os denominadores comuns das obras de Mendelsohn, Meyerbeer, Offenbach, Mahler e Schoenberg, bem como das cantilenas sinagogais, canções folclóricas, ídiche e jazz norte-americano (era) uma tarefa impossível mesmo para o propagandista mais imaginativo” (Potter, 2015, p. 313).

Como pudemos observar, a busca pela essência da música alemã, ao mesmo tempo que guardava certas semelhanças com discursos há muito tempo presente dentro dos círculos musicais alemães, foi completamente deturpada se transformando em puros discursos xenófobos e racistas. Da busca pela identidade alemã, pela especificidade de sua cultura, que tomou corpo durante a unificação, até os discursos pseudocientíficos de musicólogos racistas como Blessinger e Engel e a conferência Música e Raça, podemos acompanhar a construção e a deturpação que ao mesmo tempo unem e separam dois momentos da história: o Reich de Bismarck e o de Hitler.

 

Referências

EAGLETON, T. Ideia de cultura. São Paulo: Editora Unesp, 2011

ELIAS, N. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

POTTER, P. A mais alemã das artes: musicologia e sociedade da República de Weimar ao fim da era nazista. São Paulo: Perspectiva, 2015

WAGNER, R. Beethoven. Rio de Janeiro: Zahar, 2010

 

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