Aspectos das mudanças históricas na prática musical durante os séculos XVIII e XIX

prática musical

No século XIX, o conceito de obra de arte musical passa a determinar as práticas musicais de maneira ampla, passa a ser uma referência para elas. Ou seja, se podemos encontrar exemplos anteriores ao século XIX onde o conceito de obra de arte era utilizado na composição e performance musicais, não devemos necessariamente achar que toda prática musical era desta maneira; pelo contrário.

É importante atentarmos para as práticas musicais na identificação de um significado histórico de um conceito e suas alterações. Um conceito não surge do nada, do puro campo das ideias. Ela é gerada ao longo do tempo no seio de uma prática (Goehr, 2007, p. 108). Quais foram, portanto, as mudanças principais da prática musical que vemos no século XIX?

The Imaginary Museum of Musical Works, livro onde a filósofa Lydia Goehr discorre sobre o conceito de obra de arte musical.
The Imaginary Museum of Musical Works, livro onde a filósofa Lydia Goehr discorre sobre o conceito de obra de arte musical.

As práticas de execução, sem a presença do conceito de obra de arte, eram muito diversas das que se adotaram a partir do século XIX. De fato, ideias como instrumentação, por exemplo, obedeciam a critérios muito mais pragmáticos que artísticos. Era recorrente o compositor se informar previamente da disponibilidade de instrumentos e instrumentistas para a ocasião da performance (Goehr, 2007, p. 178). Ainda como não havia o conceito de obra e a sacralidade que ele delega a seu objeto, não havia problema no fato de um compositor se utilizar de ideias de outros compositores ou aproveitar movimentos ou peças inteiras, assim como a liberdade de interpretação de uma peça musical era muito maior: as grafias de articulações e ornamentos só foram ficando padronizadas e cada vez mais precisas com o passar do tempo e as definições de andamento e grafias de dinâmica eram muito mais subjetivas.

Outro ponto importante a se notar na relação composição e intérprete é o fato que o este compartilhava com o compositor o mesmo status e importância: como o objetivo da composição musical era servir a um propósito determinado através da sua performance – o momento em que ela justificava sua existência –não poderíamos esperar algo diverso.

Um ponto curioso é a questão dos ensaios. Como a imensa maioria da música executada era nova, ou seja, jamais havia sido tocada por aquele grupo de músicos, e os ensaios escassos, quando não inexistentes (Goehr, 2007, p. 193), em muitas apresentações aconteciam o chamado “falso início”, ou seja, os músicos se desencontravam, erravam com frequência, tendo que recomeçar a tocar a peça novamente (Goehr, 2007, p. 191). Outra possibilidade era simplesmente uma determinada peça não agradar o público e ser suspensa no meio da performance por outra. No século XIX, tudo mudou.

Beethoven, personagem central na ascensão do conceito de obra de arte musical.
Beethoven, personagem central na ascensão do conceito de obra de arte musical.

Com o surgimento do conceito como prática reguladora do campo da música, toda uma nova prática musical toma forma: como a obra de arte é única em sua essência, a necessidade da performance perfeita entra em cena. Já não havia diversas possibilidades de interpretações aceitáveis, e sim a “verdadeira”. O compositor é o ser supremo, o criador da obra e já não divide o espaço com o músico interprete, que passa a ser um meio de transmissão da ideia do compositor para o público com liberdades muito menores. A importância do compositor artista como criador da obra de arte, a ideia de respeito absoluto à obra musical, a heresia de alterar o propósito exclusivo do autor passam a ser referências adotadas por toda a comunidade musical, excetuando setores mais populares, como a da música ligeira. A figura do maestro assume uma importância inédita já que à sua figura é delegada a responsabilidade de zelar pela boa execução da obra de arte. A ideia de fidelidade de execução e a busca cada vez maior de reproduzir em todas as nuances e detalhes as “intenções sagradas” do compositor são agora leis.

Com o surgimento da ideia de obra de arte musical, as mudanças na prática músical foram profundas, gerando novas experiências no campo musical como um todo. A reverência à obra de arte também trouxe a reverência à figura do compositor. Transformado numa figura praticamente divina, sua imagem na sociedade nunca mais seria a mesma.

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Referência

GOEHR, L. The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007

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