As mudanças no comportamento do público durante os séculos XVIII e XIX.

comportamento do público
O público

O século XIX viu surgir mudanças profundas no comportamento do público dentro da sala de concertos. Foi somente neste século que a etiqueta que é observada até hoje nos concertos em todo mundo apareceu. Antes disso, a realidade era bem diferente. Se pudéssemos participar de um concerto público no século XVIII, nós estranharíamos muito a atitude displicente do público com relação à música, bem como certas práticas que foram abandonadas e que caíram em desgraça.

Uma das principais práticas que caiu em desuso foi o aplauso. Muitas vezes se aplaudia em qualquer momento que se considerasse digno. Mozart, por exemplo, relata tal comportamento do público em muitas cartas a seu pai. Não era de se esperar que com as vaias fosse diferente. Elas apareciam ao menor descontentamento.

Outros comportamentos diferiam do que costumamos a ver nos dias atuais, por exemplo: conversas durante as apresentações musicais públicas eram frequentes, o “entra e sai” de público, constante. Como os concertos eram de longa duração e apresentavam obras heterogêneas, para gostos diversos, era natural que a sala se encontrasse numa espécie de “balbúrdia” constante pelo vai e vem do público. Algo, porém, mudou no século XIX.

Beethoven, 1804
Beethoven, compositor fundamental no processo de autonomia do campo da arte

O século XIX caracterizou-se pela autonomia do campo artístico e pela alteração na função e no significado de vários conceitos relacionados às artes, sendo o principal deles o conceito de obra de arte musical. É a transformação deste conceito em regulador das práticas musicais que alça a outro patamar a música, exigindo agora do público uma reverência e um distanciamento das questões mundanas em prol de uma “percepção estética correta”. A autonomia das artes se deu pela negação do social e das interferências que a sociedade trazia para a arte. A estética romântica irá buscar uma apreciação de arte que seja desinteressada, ou seja, que deixe fora da percepção do olhar todos os elementos externos. A apreciação “correta” requer uma dedicação exclusiva, autônoma e de reverência ao objeto artístico. Este objeto agora retirado de seu contexto, de sua função social, adentra ao museu: um verdadeiro santuário das obras de arte. Na música, o papel de santuário musical será delegado às salas de concerto. É nela que podemos apreciar, distante do mundo, a obra de arte musical na sua totalidade, sem interferências externas. A partir de então, o silêncio deve ser ditado como regra máxima. O respeito à integralidade da obra é lei inquebrantável: ela deve ser apreciada como um todo, cada movimento em sequência, sem interrupções de qualquer natureza.

Ortega y Gasset sugere em seu ensaio “A desumanização da arte” que “o objeto artístico só é artístico na medida em que não é real” (2008, p. 27). Segundo o ensaísta espanhol, a verdadeira apreciação estética deve focar naquilo que a arte possui de desumano, ou seja, aquilo que vai além da representação da realidade. Devemos fazer da arte o gosto puro de jogar com a arte, sem transcender para outros campos. A desumanização pede que ao invés de ser a ideia um instrumento com o qual pensamos o objeto artístico, ela deve ser, por si só, objeto e termo de nosso pensamento. A apreciação desta arte, portanto, deve ser feita com “uma atitude espiritual diversa da que habitualmente (se) adota no resto da vida” (2008, p. 26).

Ortega Y Gasset, autor do ensaio "A desumanização da arte".
Ortega Y Gasset, autor do ensaio “A desumanização da arte”.

Uma apreciação de arte só é possível, portanto, com o isolamento completo do mundo social. O que se espera do comportamento do público é a total ausência de referência a outras práticas de conduta social externas à sala de concerto. A desumanização da apreciação estética musical exige que nos comportemos também de maneira desumanizada: uma tosse ou um espirro, lembranças incômodas do mundo dos homens, são, no máximo, tolerados por sua inevitabilidade. Demais comportamentos que atrapalhem a percepção artística são tratados, no entanto, como verdadeiras heresias.

Práticas de um campo artístico que ideologicamente advoga por sua independência das “vulgaridades do mundo”, o comportamento nas salas de concertos é mais uma construção da sociedade que o próprio campo renega. Fruto da história, a apresentação “correta” e o comportamento “como se deve” não são ideias e práticas naturais que “sempre foram e sempre serão assim”. Se hoje apreciamos a música com um tipo de reverência religiosa, é importante saber: existem outras formas históricas das práticas de comportamento do público assim como existem diversas maneiras de se observar e praticar a relação com o objeto artístico.

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Referência

ORTEGA Y GASSET, J. A desumanização da arte. São Paulo: Cortez Editora, 2008.

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