A música popular das grandes cidades no século XIX, segundo Derek B. Scott

A música na metrópole. Derek B. Scott
Otto Dix, Metropolis

O estudo da música popular no século XIX tem sido marcado por um constante crescimento nas últimas décadas. Antes relegado pela musicologia como uma mera curiosidade, um desvio do estudo da “grande música”, nos dias de hoje, o estudo das manifestações populares na música e do universo profissional do meio musical popular no século XIX tem obtido grandes avanços. Um dos nomes de destaque no estudo deste universo é o musicólogo Derek B. Scott, responsável pela formulação de uma musicologia crítica que tem em sua gama de estudo desde questões acerca da estética da música popular no século XIX e início do XX até pesquisas acerca de distinção social e hegemonia masculina no meio da música popular.

Uma das obras de destaque de Scott é “Sounds of the Metropolis. The 19th Century Popular Music Revolution in London, New York, Paris and Vienna”. Nesta obra, o musicólogo apresenta a tese de que a primeira grande revolução na música popular aconteceu, de fato, no século XIX. Para o autor, neste período a música popular se separa, enfim, da condição de ser um meio facilitado de apreciação da música da “grande cultura” para formar, finalmente, suas próprias características técnicas e formais. E não somente isto. Segundo Scott, é no século XIX que encontraremos a separação da música popular e erudita em dois “mundos das artes” distintos. Ou seja, partindo do conceito trazido pelo sociólogo Howard Becker, tanto a música popular quanto a erudita se separam criando um mundo próprio, independente de profissionais envolvidos em seu meio, em todos os processos concernentes à produção, reprodução, distribuição e assimilação dos distintos produtos culturais.

Derek B. Scott
Sounds of the Metropolis, de Derek B. Scott

Como aponta o musicólogo, “ninguém no século XX esperaria que alguém que pudesse tocar o concerto para violão de Rodrigo fosse igualmente apto para improvisar numa escala de blues. No século XIX, ninguém esperaria que uma cantora de ópera interpretasse de maneira convincente uma chanson realiste, ou imaginaria que um músico habilitado no repertório de música sinfônica seria capaz de realizar as características de uma valsa vienense (…). A revolução na música popular trouxe à baila idiomas musicais cujas diferenças tanto em estilo e significado do repertório clássico criaram problemas insuperáveis para aqueles que não eram familiares às novas convenções e não possuíam as habilidades específicas daqueles novos estilos” (Scott, 2011, p. 4). Assim sendo, o termo “popular” pela primeira vez se refere não somente à recepção da música, ou seja, à popularização de determinada ária de ópera ou movimento sinfônico, mas também à presença específica de um estilo próprio.

Desse modo, Derek B. Scott busca em quatro grandes metrópoles do século XIX – Paris, Londres, Viena e Nova York – tanto a evolução dos estilos musicais próprios da música popular como o desenvolvimento de toda uma rede de cooperação profissional em torno deste novo universo. Para o musicólogo, é na grande cidade que se encontram os elementos necessários para a produção de tamanha revolução musical. Na metrópole, a arte teve que dividir espaço com as demais commodities. Com foco no consumidor individual, a arte não mais obedecia à agenda de seus antigos patronos e sim a do mercado (Scott, 2011, p. 38). A grande cidade era o cenário perfeito para os empresários do ramo da cultura buscar mercados culturais lucrativos e oportunidades inexploradas. Neste universo, a música feita para o mercado encontra seu habitat natural.

Partindo de questões históricas e sociais até chegar a questões estéticas e formais, Derek B. Scott proporciona em seu livro um criterioso panorama da música de salão, do music hall, do concerto promenade, além de trazer dados valiosos acerca do mercado musical do século XIX. Assim, tanto o desenvolvimento das leis de direito autoral e a reprodução em massa de partituras, quanto a construção de salas de espetáculo e a carreira de estrelas musicais como Lanner e Strauss encontram seu denominador comum e suas inter-relações.

Sounds of metropolis. The 19th-Century popular music revolution in London, New York, Paris and Vienna” de Derek B. Scott certamente provará ser uma leitura gratificante para todos aqueles que buscam conhecer as origens da indústria musical, cujos efeitos perpetuam-se até hoje e muito mais além.

Referência

SCOTT, D. Sounds of the Metropolis: The 19th Century Popular Music Revolution in London, New York, Paris and Vienna. Oxford: Oxford University Press, 2011

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