A gala de ópera e seu papel na formação do repertório operístico

Gala de ópera
Louis Beroud (1852-1930), "As escadarias da ópera", 1877

O processo de hierarquização dos gostos musicais em conjunto com a crescente expansão do mercado musical fez surgir um interessante fenômeno na vida musical: a gala de ópera. Esses concertos apresentavam uma sucessão de célebres árias de óperas de diversos compositores, representando uma etapa importante na separação do concerto instrumental e do concerto vocal. Durante o século XVIII e ainda durante boa parte do século XIX, uma das regras fundamentais na programação de um concerto público de miscelânea era justamente o equilíbrio entre peças vocais e instrumentais. A crescente padronização dos concertos instrumentais, que excluíam qualquer tipo de peça para voz, fez surgir espaço para o seu oposto, um concerto dominado praticamente por uma seleção de peças vocais.

As origens da gala de ópera podem ser encontradas na tradição de se fazer música de forma privada tanto na corte quanto nos lares de classe alta (Weber, 2011, p. 392). Os concertos de salão adquiriram uma importância elevada na Europa do século XIX e tal prática deu origens a concertos públicos desenhados em certa medida segundo este modelo. Seu repertório era formado por uma seleção de dez a vinte peças, em sua grande maioria vocais, advindas de árias de óperas famosas. No começo, tais concertos eram apresentados geralmente com acompanhamento de piano, sendo substituído pelo acompanhamento orquestral à medida que este empreendimento foi ganhando importância, ampliando suas receitas.

Gala de ópera
A gala de ópera foi um dos maiores entretenimentos musicais da elite política e financeira no século XIX.
“En el Balcón” de Juan Luna

Uma importante contribuição da gala de ópera está no fato desta ter colaborado para o estabelecimento de um repertório operístico. Este é um fato relevante que evidencia o status social da ópera dentro das hierarquias de gosto. Enquanto gênero, a ópera foi talvez aquela que mais obstáculos enfrentou rumo à consagração. Dentre inúmeras razões, o próprio fato do repertório operístico estar ligado ao universo dos concertos de miscelânea e aos formatos populares que derivaram deste tipo de concerto na Europa do século XIX como, por exemplo, os concertos promenade, fizeram com que o gênero enfrentasse uma séria resistência dos idealistas musicais. Salvo algumas exceções, a formação de um repertório canônico no universo operístico exigiu um tempo maior de gestação do que o do universo da música instrumental, que já tinha estabelecido boa parte de seu cânone de obras por volta de 1848 (Weber, 2011, p. 134). Se até esta data algumas óperas já haviam se estabelecido dentro do cânone, tal como Don Giovanni, As bodas de Fígaro e o Barbeiro de Sevilha, obras de compositores como Donizetti, Bellini e Meyebeer demoraram a encontrar espaço dentro do universo das “grandes obras musicais”. Assim sendo, um cânone de óperas, ou melhor, de seleções de óperas que iam desde árias e duetos até aberturas orquestrais, foi se formando como uma espécie de terceira via: estavam sempre presentes no repertório dos concertos vocais, mas não encontravam a consagração junto ao discurso idealista musical. Enquanto fenômeno que conectava os dois universos, foi justamente no estabelecimento de um repertório padrão que a gala de ópera exerceu sua maior colaboração.

Um bom exemplo do estabelecimento deste repertório nas galas de ópera eram os concertos oferecidos por uma cantora conhecida em Paris por Madame Ronzi, por volta da década de 1860. Seus concertos foram extremamente populares e marcados pelo fato de possuir poucos compositores contemporâneos à época. Os programas de suas apresentações eram recheados permanentemente por árias de Rossini, Donizetti e Bellini, além de compositores de canções populares como Jacques Blumenthal, Giovanni Lucantoni e Adolphe Fumagalli, estreitando os laços entre o universo operístico e o café concerto (Weber, 2011, p. 395).

Alguns compositores viram nesta aproximação um bom meio de empreender carreira musical e passaram a compor canções para salões e a empreender galas de ópera. Como grande parte da audiência era formada por aristocratas – fato que deixa claro que mais do que ser representante do surgimento do gosto pela “música séria” a aristocracia se caracterizava por uma pluralidade de gostos musicais – muitos compositores viram aí uma oportunidade de obter um bom rendimento financeiro. Um exemplo deste grupo de compositores é o já mencionado J. Blumenthal, que organizava apresentações de música vocal mesclando peças de sua autoria com demais obras do repertório operístico.

Na Inglaterra, um estilo de concerto próximo às galas de ópera francesas era apresentado nas casas de campo da aristocracia local. Nestas apresentações, no entanto, havia uma parcela maior de música instrumental, mostrando que os concertos de miscelânea ainda influenciavam parte da vida musical europeia durante grande parte do século XIX. Curiosamente, uma larga lista de compositores ingleses figurava nestes concertos ao contrário do que ocorria nos concertos públicos de música instrumental, onde a maioria dos compositores eram estrangeiros (Weber, 2011, p. 396). Já na Alemanha, os chamados Liedertafel ofereciam concertos vocais mais homogêneos onde predominavam os lieder e canções corais de compositores alemães como Mendelsohn e Beethoven.

Referência

WEBER, W. La gran Transformación em el gusto musical: La programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

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