A denegação da economia pelo campo da arte

denegação da economia

Uma das maiores gafes possíveis no campo das artes é sugerir que o objeto artístico possui valor por ter valor de mercado. Alguém que julgue valioso um quadro de Van Gogh pelo simples fato de ter sido arrematado por milhões de dólares receberá certamente o olhar desconfiado dos habitués dos espaços culturais. O valor de uma obra no campo das artes não é atribuído pelo valor alcançado no leilão ou pelo custo da produção. Nada seria mais absurdo que delegar valor a uma pintura pelo custo do material envolvido e pelo tempo empreendido em sua produção. O valor de uma sinfonia de Beethoven não reside no tempo em que o compositor demorou para escrevê-la e nem no papel, tinta e pena empregados em sua elaboração. Em suma, o campo das artes opera sob a lógica de um outro tipo de economia: a economia simbólica.

Gustave Flaubert, um dos maiores defensores da arte pela arte
Gustave Flaubert, um dos maiores defensores da arte pela arte

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, uma das regras fundamentais do campo das artes é a denegação da economia, ou seja, o desafio à lógica habitual das leis que regem as práticas econômicas de um modo geral. O campo artístico tem como fundamento uma recusa do comercial, uma denegação coletiva dos interesses e ganhos comerciais (Bourdieu, 2014, p. 19). Das questões financeiras não se fala jamais. Toda lógica do campo econômico é subvertida dentro do campo artístico. Segundo Bourdieu, o artista só pode triunfar no terreno simbólico perdendo no terreno econômico (Bourdieu, 1996, p. 102). Em suma, para o campo da arte, tão maior será o valor de um livro, de uma pintura, de uma peça musical quanto menos estes foram pensados para atender a uma demanda pré-existente, ou seja, uma demanda para qual existe um mercado pré-estabelecido de compradores, e quanto maior forem os riscos assumidos pelo artista dentro da economia simbólica. Isto também ocorre porque é somente o objeto artístico autônomo que pode atender às questões puramente formais e estéticas de maneira desinteressada, sem precisar atentar para questões de cunho mercadológico. Tal posição leva o artista a ter como clientes, pelo menos a curto prazo, os seus próprios concorrentes, ou seja, os outros artistas, levando inclusive à desconfiança quanto ao sucesso imediato de um empreendimento artístico.

Em uma economia que opera às avessas, toda a lógica de acúmulo de capital é invertida. Como já dito anteriormente, o valor do objeto artístico não é definido nem pela matéria prima e nem pelo tempo de produção envolvido. Operando em lógica inversa, o capital acumulado por um produto artístico só é adquirido após a produção do objeto, com o tempo, através de uma lenta consagração adquirida, inclusive, muitas vezes, somente após a morte do produtor. É importante observar quanto a essa questão, o papel fundamental das instâncias de consagração na produção de valor do objeto artístico e do artista. São tais instituições que operam na separação entre o artístico e o não artístico. Atuam neste sentido os museus, as salas de concertos, as publicações acerca de música, de arte e os críticos, dentre outros. É somente com a consagração dentro destas instituições que o objeto artístico adquire seu valor simbólico.

Como pode-se perceber, a consagração outorgada por tais instituições é produto de um longo tempo. Isto leva a uma outra importante questão: a denegação da economia permite triunfar no campo artístico aqueles aos quais as preocupações financeiras imediatas encontram-se afastadas. Como lembra Theóphile Gautier em uma carta à Feydeau, “Flaubert teve mais espírito do que nós, teve a inteligência de vir ao mundo com um patrimônio qualquer, coisa que é absolutamente indispensável a qualquer um que queira fazer arte” (Bourdieu, 1996, p. 102). Em suma, o dinheiro e a independência financeira conferem liberdade ao artista, propiciando ao mesmo uma tranquilidade em assumir riscos que levam em consideração uma outra lógica econômica. A liberdade financeira leva a liberdade subjetiva.

Pierre Bourdieu. Espaço dos possíveis
Pierre Bourdieu

A denegação da economia e a institucionalização de tal lógica da economia simbólica ocorre em paralelo com o processo da autonomização do campo artístico. Tal processo de autonomia se acelera na revolução industrial, em grande parte como reação à mercantilização da arte. O artista passa a advogar pela singularidade da arte, abrindo uma verdadeira clivagem entre o campo de produção artística (a arte pela arte, a arte produzida em concorrência aos outros artistas) e a arte para o mercado. Curiosamente, a libertação das exigências do mercado externas ao campo, não abstém o artista de enfrentar as questões socialmente impostas pela economia simbólica, levando os produtores de arte, num primeiro momento, a um duelo não mais no livre mercado financeiro das obras artísticas, mas à competição por lucros simbólicos e posições de prestígio.

Na música, a denegação da economia e o processo de autonomia como um todo aceleram a separação ocorrida no século XIX entre a música erudita e a música ligeira. O século XIX vê uma verdadeira expansão do mercado musical como um todo e, como reação, todo um discurso idealista acerca da música toma forma. Amparado num processo de hierarquização dos gostos (por sua vez amparado em instituições de consagração como a crítica, as revistas musicais, as salas de concerto), o século XIX produz a separação entre a música pura e a música que tem como função servir a outros propósitos não musicais.

Tal autonomia tem, no entanto, seus limites. Apesar de advogar pela autonomia do campo da arte, Beethoven jamais deixou de escrever música para o mercado. A denegação da economia depende, também, da capacidade de denegar práticas econômicas existentes. Como lembra o historiador William Weber, “muitos compositores ainda escreviam música apropriada para o público menos intelectual. Tanto Mendelsohn quanto Schumann escreveram canções para cantores amadores, que foram interpretadas durante todo o século em lugares afastados do mundo musical clássico” (Weber, 2011, p. 133).

…..

Referências

BOURDIEU, P. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. Porto Alegre: Zouk, 2014

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

WEBER, W. La gran Transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

Comentários

comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here