A comercialização de pianos no século XIX

Detalhe de uma peça publicitária da Steinway And Sons. Século XIX

Se ao lado das performances musicais públicas a venda de partituras foi o grande protagonista da comoditização da música no século XIX, esta não teria atingido as altas cifras que atingiu sem o avanço da comercialização de pianos. As partituras para o instrumento representavam a principal fonte de renda das editoras de música no período. Não é para menos. Impulsionado pelos avanços tecnológicos da revolução industrial e por uma crescente classe média cada vez mais consumidora de música, o mercado de venda de pianos viu surgir uma demanda exponencial pelo instrumento.

Piano na classe médiaDe fato, o piano foi o instrumento da classe média por excelência durante o século XIX, tornando-se praticamente onipresente nos lares das chamadas “boas famílias burguesas”. Símbolo de prosperidade e civilidade, ter um piano se tornou uma necessidade em seus lares. Por exemplo, uma sala de estar vitoriana geralmente contava com sofás e poltronas, uma mesa de centro, uma outra de costura e um piano de armário. Neste ambiente, a mulher torna-se um importante personagem no estabelecimento do piano como o instrumento musical da classe média. Em uma sociedade fortemente dominada pelo discurso patriarcal, o piano esteve fortemente ligado à imagem da mulher burguesa. Como lembra o musicólogo Derek Scott, “tocar piano e cantar eram considerados feitos importantes e distintos para jovens moças de classe-média” (Scott, 2008, p. 30).

Os efeitos da ideologia burguesa no que concerne à música são impressionantes quando colocados em números. Se no século XVIII um artesão fabricante de pianos não produzia mais do que 50 instrumentos por ano, estima-se que somente nos Estados Unidos, no ano de 1866, 25.000 pianos tenham sido feitos, somando um valor total de 15 milhões de dólares.  A Inglaterra não ficava para trás. William Pole, no seu catálogo Musical Instruments in the Great Industrial Exhibition of 1851, estima que o mercado local gerou um milhão de libras e a França 320 mil libras (Scott, 2008, p. 29).

Pleyel
Sala Pleyel

Para atender uma demanda crescente, novos métodos de produção, obedecendo à racionalização da divisão de trabalho, se impôs em muitas fábricas de piano o que impulsionou a produção do instrumento reduzindo os custos de fabricação. Adotando procedimentos industriais, Londres logo se tornou o centro europeu de fabricação do instrumento. Em 1851, a Inglaterra sozinha contava com 200 firmas especializadas na fabricação de piano (Scott, 2008, p. 29). O resultado de tal cenário foi uma queda no preço dos instrumentos o que possibilitou frações menos afortunadas da classe média possuir um exemplar em casa.

De fato, a popularização da venda de pianos torna-se crescente à medida que o século avançava. Além da queda no preço, novos métodos de pagamento surgiram, como a introdução do parcelamento em até três anos na Londres da década de 1860. Revistas musicais especializadas em piano, como a “London Pianoforte Magazine” ajudavam a aumentar a popularidade do instrumento.

As estratégias para atrair clientela não paravam por aí. Muitas firmas de piano possuíam sua própria sala de concerto. Na metade do século, a casa Pleyel possuía dois salões para concertos em Paris. Na mesma cidade, sua concorrente, a casa de pianos Erard, também possuía seu próprio auditório. Em Viena, a Bösendorfer possuía uma sala de concertos com capacidade para 500 membros. Em Nova York, a Steinway and Sons tinha uma sala com capacidade para 2500 pessoas. Sua filial londrina possuía uma sala com capacidade para 400 pessoas.

Steinway and Sons publicidade
Peça publicitária da Steinway and Sons

A estratégias na comercialização de pianos, no entanto, divergiam segundo o poder aquisitivo do público alvo de uma determinada firma. A Steinway and Sons jamais adotou a popularização como uma alternativa de mercado. Seus pianos focavam a elite das classes burguesas. Apoiando-se no prestígio adquirido, seus instrumentos eram a marca distintiva de uma pequena parcela de endinheirados. O alto valor dos instrumentos pode ser medido em uma carta de um membro da família Steinway. Theodore, pensando que seu irmão William estava cobrando muito caro por seus pianos, o adverte que enquanto a Bechstein cobrava 350 marcos por um piano no varejo, a Steinway cobrava 700 marcos no atacado (Hoover, 2002, p. 52). No entanto, tal fato não preocupava a família. Na busca por clientes com alto poder aquisitivo, parte da estratégia de elitização da empresa era promover turnês de virtuoses consagrados, como a de Anton Rubinstein pelos Estados Unidos entre os anos de 1872 e 1873, além de desenvolver peças publicitárias na imprensa especializada com a presença e o testemunho escrito de grandes intérpretes (Scott, 2008, p. 31).

Outras firmas, no entanto, focavam no mercado popular buscando oferecer desde pianos ao menor custo possível,dando espaço até para a fabricação de exemplares um tanto curiosos como o piano em forma de mesa de costura. Outra estratégia destas empresas era focar na ornamentação dos pianos. Atender uma demanda específica também era um dos meios de atrair clientes: é para suprir uma classe média cada vez mais habituada em viver em espaços menores que fabricantes de piano de Londres, Paris e Viena desenvolveram o mercado de pianos de armário (Scott, 2008, p. 29) na década de 1820.

A comercialização de pianos alimentou a demanda por outros serviços musicais, desde aulas até o mercado de partituras sendo também alimentado por elas. Instrumento chave do repertório da música de concerto deste século, o piano também esteve presente no cotidiano da família burguesa e nos mais diversos ambientes, testemunhando também o crescimento da indústria cultural ao longo de todo o século.

….

Referência

HOOVER, C. Piano Roles, a New History of the Piano (Zank, S. Org). New Haven: Yale University Press, 2002

SCOTT, D. Sounds of the Metropolis: The 19th Century Popular Music Revolution in London, New York, Paris and Vienna. Oxford: Oxford University Press, 2011

Comentários

comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here